Crônicas Esportes

O sonho da volta da Monarquia

Adriano, Flamengo, Imperador, Monarquia
Escrito por Gabriel Galo

Eu tenho alguns sonhos recorrentes. Uma situação comum, vou correr, por qualquer motivo. mas as minhas pernas estão travadas e excessivamente pesadas, e me bate um grande desespero. Há aquele, no lado oposto, em que descubro poder flutuar e planar e saio voando por aí. Um muito estranho é aquele que fico daqui a ali (sem nunca saber direito onde é aqui muito menos ali) e no caminho tenho que passar por dentro de uma casa grande com um cachorro bravo que insiste em querer me pegar. Tem o que constantemente me joga para uma estação de metrô cujo caminho é composto por perigosos bandidos e não tenho como escapar. Já que estamos falando de transporte, lembro daquele em que estou perdido na malha de uma grande cidade qualquer. Pode ser Salvador, São Paulo e região metropolitana, Washington, Londres, Moscou e até mesmo Viena. Eu ali, zonzo, sem poder decifrar qual trem ou ônibus tomar, sequer sei aonde vou.

Para vocês que acreditam que sonhos podem ser catalogados e transformados em significado, segurem este que aconteceu esta semana. Não é recorrente, foi evento único, mas teve seu impacto.

Sonhei que um grande golpe havia sido perpetrado no Brasil, com apoio militar, e que a Monarquia se reinstalava. Como convém, a capital deixaria de ser Brasília, voltaria para o decrépito Rio de Janeiro, que poderia assim, quem sabe, voltar a brilhar como potência. O apoio popular era grandioso. Milhões de pessoas saíram às ruas a aplaudir o novo monarca gestor-em-cetro da Terra Brasilis.

Para tão formidável evento e atendendo a demanda por necessária pompa, desfilava o nosso novo governante em carro aberto, poderia ser um do Corpo de Bombeiros ou um tanque do Exército, devia eu estar daltônico no sonho para não distinguir com clareza o vermelho do verde. Usava uma coroa na cabeça, uma longa capa peluda que provocava calor só de olhar, imagine para o coitado -pobre não era- que a usava sob um sol de 45 graus no verão carioca.

A multidão saudava em gritaria e ele respondia um pouco fora do protocolo. Levantava as duas mãos em comemoração, apontava para os pedestres, botava a língua pra fora. As câmeras de TV, repórteres de todas as mídias e fotógrafos se engalfinhavam pelo melhor ângulo, embora estivesse fora de cogitação se aproximar. Apesar de não haver cordão de isolamento, o povo respeitava o cortejo, permanecia na calçada enquanto a rua era do carro aberto do Imperador.

Fui sendo tomado por uma inquietude atroz. Como pudemos nos dar o desprazer de ter mais um golpe? E quem era aquele camarada em cima do carro, agora mostrando o dedo médio para a câmera da Globo?

Resolvi me aproximar. Fui abrindo caminho na multidão para ver de frente a chegada do tanque dos Bombeiros.

Lá no topo estava ele. Um pouco rechonchudo, como todo bom monarca deve ser. Sem camisa, apenas a capa a lhe cobrir as costas, de peito aberto. Moreno de pele bronzeada, carregava um cavanhaque no rosto e cabelo raspado. Em vez de calças, usava um short destes Adidas da década de 80, curto e apertado. Imaginei que estivesse de chinelos de dedo.

Apertei os olhos e esfreguei-os esperando o foco. E enquanto a lente se ajustava à realidade que se fazia na minha frente, pude perceber, por fim, que ali estava desfilando nosso novo rei, Adriano Imperador, o Didico da Vila Cruzeiro, o próprio.

(Pensando bem, talvez fosse uma reapresentação no Flamengo.)

Eu, então, rio. Rio de desespero e de ironia. Se é para andar para trás neste país, façamos direito e sigamos direto ao Brasil Colônia, mas desta vez com um Imperador que veio do povo e ainda traz consigo assinaturas de duas das culturas mais importantes desta terra, a pobreza e o futebol. E se os romanos saudavam o déspota com o contumaz “Ave César!”a nós resta tropicalizar o bordão e bradar sem gritar e com uma certa dose de desgoto “afe, meu dêo…”

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

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