Crônicas Crônicas da Copa 2018

Talemi e a fantasia do que não é

Mehdi Taremi, Iran, Portugal, Russia 2018, Copa do Mundo
Escrito por Gabriel Galo

Apita o árbitro o fim do jogo. Era aquele resultado uma das mais zebras em toda a história da Copa do Mundo. Uma virada histórica. Por 2 a 1, ambos os gols nos acréscimos, o Irã batia armada de Portugal, com Cristiano Ronaldo em campo. Os repórteres se acotovelam no pique para buscar a primeira palavra do autor do gol. Ajoelhado no centro do gramado da pequena Saransk, Talemi chora de alegria, enquanto é abraçado por colegas de equipe.

Contra ele vê câmeras e microfones sendo empurrados, gente gritando em diversos idiomas. Não sabia se sorria, se chorava se falava ou se calava. Proferiu em persa as palavras que varreram o mundo inteiro: “cuidem de nossas crianças!” O mundo noticiava o feito iraniano em contraste com a decepção lusa e o precoce adeus de Cristiano Ronaldo à competição, depois de um começo avassalador. O rosto de Talemi era manchete e notícia estampada onde quer que houvesse transmissão.

Na concentração pós-jogo, viveu as benesses de ser a celebridade da vez em um time peão. Buscavam comida, bebidas, tinha prioridade nas massagens. Conseguiu um quarto só para ele, a suíte máster, oferecimento da federação local. Havia tanta alegria pelo momento que inveja não se abateu sobre ninguém. Pelo contrário, sentiam-se todos em dívida pelo petardo de esquerda que aos 49 minutos do segundo tempo venceu Rui Patrício e estremeceu a nação.

Tendo alcançado pela primeira vez o mata-mata de uma Copa do Mundo, a delegação iraniana foi recebida em carro aberto em Teerã. A Talemi coube honrarias dignas de um chefe de estado. Dançou em bailes no Palácio do Governo. Foi convidado a festas e cerimônias secretas dos illuminati persas. Famoso e desejado, emendou propagandas em sequência, entrevistas. Assinou contrato de longo prazo por alta quantia em grande clube da Europa. Já não gastava, tudo lhe vinha em bandeja de prata, ofertas bondosas recheadas de gratidão.

Humanitário, criou fundações, ensinava inglês para crianças carentes, construía casas nas áreas não-nobres para os necessitados. Foi cortejado para ser político, a representar o Irã no mundo. O que quisesse era seu, bastava pedir! De tanto se sentir nas nuvens, pensou em ter com Alá e reivindicar as suas virgens em vida, afinal, podia. Ou não? Via-se no avançado da idade, sentado em uma ampla sala de sua mansão, por onde seus netos corriam, mas que agora se sentavam atentos, ouvindo com cuidado a história em que o avô foi maior que Cristiano Ronaldo.

Tudo isso passou num flash quando Talemi se preparou, pé esquerdo na bola e chutou-a para a meta portuguesa. Viu sua vida como seria, como imaginava, como sonhava. Era aquela a sua vez. Seu chute potente comprimiu-se contra os gomos da rede lusa… mas pelo lado de fora.

Desiludido por ter somente a si para culpar pelo empate que desclassificava – menos pela eliminação esperada, mais pela oportunidade desperdiçada de se tornar estrela – Talemi então desabou no gramado e chorou copiosamente. Suas lágrimas eram a chance perdida, a uma em um milhão que todos os mais-ou-menos do mundo esperam, se esvaindo, esvanecendo, desaparecendo. Cada gota era um trecho do sonho que por uma brevíssima fração de segundo foi em fantasia, para desmoronar em realidade. Avançaria Ronaldo, por fim, ainda maior que Talemi.

Continuaria ele, afinal e provavelmente, um ilustre desconhecido. Restaria voltar à labuta da batida constante dos trabalhadores contumazes, rumo ao próximo continental, à próxima eliminatória, à próxima Copa. Entenderia que haverá de voltar para o seu quase anonimato, o que, comparado à glória em filme diante de seus olhos de logo antes, terá o gosto amargo e salgado de uma lágrima vertida somente para dentro. Lembraria depois de ter que encarar os olhares amuados dos companheiros que confiaram em sua finalização derradeira para que alçassem juntos voos maiores. No quando, abaixará a cabeça, evitando o assunto, torcendo para que esqueçam, para que passe como se nada tivesse acontecido. Cada um sabe a dor e a delícia de ter sua chance. O cavalo passou selado, esteve em suas mãos, mas ele falhou na monta.

E se alguém um dia perguntar como seria a vida daquela seleção se o gol saísse, Mehdi Talemi provavelmente em silêncio permanecerá, mas teria substância para dizer que viveu aquela fugaz realidade fantasiosa num átimo mais veloz que um piscar de olhos. E era lindo.

Crédito da foto: Hector Vivas/Getty Images

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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