Crônicas Todos têm uma história

Uber tales: Abraão

Escrito por Gabriel Galo

Abraão chega à Praça Mauá com seu Palio. Negro de papo que demora para soltar, foi o primeiro motorista de Uber com quem conversei que não tem planos de sair da polêmica empresa americana. Com apenas duas semanas de afiliação à Uber, ele resolveu seguir com seu Fiat nas apertadas vias cariocas porque precisava faturar um. A necessidade como gatilho de entrada; até aqui, tudo dentro dos conformes. No entanto, seu histórico é mais glamouroso, por assim dizer. Pelo menos é o que pensaríamos da porta para fora, porque entre quatro paredes a banda toca diferente.

“Eu era técnico de iluminação. Fiquei muitos anos mexendo com gravação, quase todos na TV. Trabalhei na Manchete, depois na Globo. Fiz tudo quanto é novela. Estava em Xica da Silva, por exemplo. Esperança foi o pior período, vivia fora de casa por meses, andava sujo e o dia parecia não ter fim. Depois fui pro cinema, pagava mais, inclusive. Meu negócio era mais tomada externa, e isso dava um trabalho danado. A gente ficava 12, 14 horas por dia gravando, eu tinha somente uma folga semanal. E normalmente nem dava para programar nada, porque sempre tinha uma festa, um bar, alguma coisa acontecendo com a equipe. E quem não ia era cortado da panelinha… Não dá para ser direito e ter futuro trabalhando na TV. Precisa vender a alma. Rola cada coisa que você não imagina! Tem mais droga dentro da Globo que nos morros do Rio de Janeiro. Eu não concordava, nem me envolvia, então fui sempre sendo mais um na equipe. Atores e atrizes fazem qualquer coisa para aparecer. Hoje levo a vida muito mais tranquilo. Quero continuar no esquema de agora, trabalhando quando eu quiser. Chega uma idade que tem que tirar o pé do acelerador, o corpo não aguenta  o tranco. E a vontade acaba também, né? Moro no Vidigal, saio com minha bicicleta para pedalar todo dia. Isto não tem preço. Depois de mais de 20 anos é a primeira vez que me sinto livre.”

A cada interação, cada uma, sem exceção, sou ensinado a valiosa lição de que a vida vale a pena ser vivida ao seu máximo, livre, leve e solta.

****

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e mais tantos outros lugares e personagens fascinantes.

Deixe seu comentário