Crônicas Esportes

Vocação para mártir

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Escrito por Gabriel Galo

Os torcedores presentes no Maracanã na final da Taça Guanabara são verdadeiros heróis do futebol, que ainda respira pela paixão de toda uma gente.

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Houve um tempo, naquela longínqua era em que os geraldinos tinham voz e vez no futebol, que a Taça Guanabara era o ápice do futebol carioca – talvez brasileiro. Comemorava-se com status de título-pra-valer o caneco da antiga cidade-estado, a Atenas brasileira. Mirem-se no exemplo dos geraldinos do Maraca, seus radinhos de pilha, seus chinelos e roupas puídas e o futebol como paixão máxima do entretenimento espetacular de ver notórios do naipe de Zico a desfilar suas elegâncias na grama verde sagrada do maior de todos.

Mas o tempo se encarrega de corroer as válvulas de escape do sofrimento cotidiano de toda uma gente.

Num campeonato com favorito rico e oponentes históricos menos – ou nada – estelares, Vasco e Fluminense, que passaram o último nacional lutando para não cair, ergueram-se ao púlpito da redenção. Ficou para trás o ricaço de escrete sem alma, abrindo caminho para a raça dos que não têm nada a perder.

Mas no meio tinha uma pedra: a pequenez das autoridades. A esta altura do campeonato, algo fica claro fora das fronteiras do estado do Rio de Janeiro. Passou de impressão e se tornou certeza em todo o Brasil. As autoridades jurídico-político-militares do Rio de Janeiro são um resumo do que de pior existe na humanidade.

Diretorias de Vasco e Fluminense se engalfinharam numa sem-porquê pelo domínio do Setor Sul, a Jerusalém da bíblia da incompetência. Apareceu então, o outro lado da mitigação de conflito: o gestor público incapaz de mediar algo tão simplório. Dentro da nova era da punição esdrúxula e da preguiça de ações coerentes, decidiu-se nem mesmo pela espúria torcida única, mas por algo pior: a torcida nenhuma. Para a estupidez humana, disse Einstein, não há limites.

Tudo isso em dia de jogo. Com milhares de Joões e Josés e Marias a ostentarem seus ingressos que valiam nada, assim como a si mesmos dentro do tabuleiro político-social de uma nação falida. O vai-e-vem não dava conta de se saber se os portões estariam, afinal, abertos ou lacrados. Se o silêncio do povo nas arquibancadas do elefante-branco ensurdeceria um clássico sem sentido ou se, no fim, haveria sangue no grito da torcida que tomaria as cadeiras para si, proprietário que é de uma das casas de espetáculos mais admiradas de todo o mundo.

Ainda assim, mais de 26 mil torcedores passaram as catracas do Maracanã. Invariavelmente, todos os presentes ao Maracanã hoje devem ser exaltados. Coragem que flerta com loucura. Correram o risco de virarem mártires do futebol.

Propuseram-se a serem feitos de palhaços pelas “autoridades”. Foram violentamente acossados pela polícia e por agentes de segurança. Idosos, mulheres, crianças, ninguém foi poupado. Entraram no estádio quase no fim do primeiro tempo, perdendo parte do espetáculo pelo qual pagaram para assistir.

Enfrentaram o medo de se tornarem estatística para gritarem um brado desesperado de que o futebol – e o povo – tem de prevalecer. Cada um lá externava um “eu ainda existo”, intencionalmente ou não.

Coloquemos, no entanto, a realidade do Rio de Janeiro na equação. O risco de virar estatística existe sem direito a defesa. Uma briga de facções aqui, a milícia agindo ali, a polícia e sua repressão de todo um povo, especial atenção ao negro e pobre. Talvez fosse ali no Maracanã, sob a mira de balas de borracha e no raio de alcance de bombas de efeito moral, que este estivessem mais seguros.

Se for para se despedir da vida, que seja na exigência de direitos e na reinvindicação do que é nosso por direito. No grito de gol que explode a arquibancada e faz esquecer as agruras de uma vida em que anda com um alvo nas costas. Espalhados no couro grosso da persistência em manter-se vivo um recrudescimento pela convivência diária com o absurdo. Quando fustigados não choram, se ajoelham, pedem, imploram a continuidade da existência.

Quando a morte não mais choca, há de se lutar pela elevação do sentido da vida. Nem que venha no gol de um título que não mais importa, por jogadores que não são craques, mas representam uma paixão que transcende miudezas matérias e assume significado metafísico. Se não podemos comparar Washington e Assis com Luciano, nem Dinamite com Maxi Lopes, tragamos o ditado segurando a fumaça para a mentira fazer efeito mais rápido: quem não tem cão, caça com gato.

São heróis de um querer não explicável pela ótica de burocratas, mas sim pelo fervor de um sentimento que os definem. Seguram-se na finura do fio que liga o agora ao passado glorioso para justificar que o Vasco ainda é o Vasco, que o Fluminense ainda é o Fluminense e que o futebol ainda respira. No tratamento espúrio de sempre, fizeram sorrir os geraldinos, expulsos na gentrificação da dita arena. São sobreviventes.

Merecem, pois, os loucos vascaínos e tricolores, respeito e aplausos. E definitivamente não merecem a FERJ e sua política imunda, tão imunda quanto o covil de autoridades que domina o Rio de Janeiro em qualquer esfera.

Crédito da foto: Rafael Ribeiro

Leia mais dos meus textos aqui no Papo de Galo.

O jogo terminou Vasco 1×0 Fluminense.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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