Crônicas Minhas histórias

Voinho e Voinha

Escrito por Gabriel Galo

No dia em que me casei, 06 de setembro de 2009, eu e minha ex-mulher atravessamos o corredor até o improvisado altar cercados de amigos, parentes, conhecidos, colegas de trabalho e gente com quem perdemos contato, propositalmente ou não. Sentados na primeira fileira do lado direito estavam meus avós maternos, Seu Perez e Dona Célica. Um dia antes eles haviam completado 50 anos de casados. Festa em dobro! Tínhamos sobre nossos ombros a responsabilidade da renovação do casamento, duas gerações mais tarde.

Na época, Voinho, no auge dos seus 76 anos, Voinha com seus 80 anos.

Quando mandamos a Salvador as passagens para que eles, então, viessem a São Paulo, a preocupação foi geral. Não por meu avô, esbanjando saúde. Na primeira vez que voltei a Salvador no fim de 2007 e o revi depois de 11 anos, encontrei-o carregando uma máquina de lavar-roupas com o filho mais novo, meu tio Bola, pelos corredores do apertado emaranhado de casas do Buraco da Gia, travessa da Vasco da Gama encrustada entre a ladeira do HGE a do Acupe de Brotas. O negócio era como Voinha reagiria à viagem de avião, a estar fora de casa. Já sofrendo pela diabetes, tinha dificuldades em caminhar, em escutar, em enxergar. Teimoso que sou, bati o pé, “voinha vem!”, e ela veio na caravana da velha cidade da Bahia, algo como duas ou três semanas antes do casamento, volta marcada para ou uma duas semanas depois. Seriam, enfim, férias para eles.

O que era preocupação virou espanto.

A casa onde minha mãe morava tinha uma escadaria íngreme que dava para o segundo andar. Inebriada pelo ar de Santana de Parnaíba, cidade histórica da região metropolitana de São Paulo, não pela qualidade do ar que se respira por lá – mistura de poluição com o fedor poderoso do Rio Tietê – mas talvez pela renovação do ambiente, Voinha rejuvenesceu 10, 15 anos. Máquina do tempo! Enxergava e ouvia como lhe aprouvesse. Subia e descia as escadas continuamente, como num exercício. Não porque tinha afazeres, mas porque PODIA. Sentia-se energizada, feliz. O mundo se reabria para ela.

No dia da festa, Voinho era o centro das atenções. Dançou, pulou e cantou até altas horas da madrugada. Todos queriam um pedaço do velhinho.

Acontece que ele tem – e por falta de palavra melhor, vai essa – uma aura contagiante. Meu avô é dessas pessoas que dá vontade de ficar abraçado o tempo inteiro. Apesar de uma vida sofrida, dura, pesada, o sorriso inigualável no rosto. Todos querem ser netos de Seu Perez. Seu carisma transborda.

Ele vive de uniforme em casa: bermuda com chinelo de dedo, sem camisa, muito pelo no peito e nada na cabeça. É o Careco. Fez de pintor sua profissão, em especial pintando ou restaurando fotografias antigas. Lembro bem de sua loja, seu ateliê como-deu-para-fazer, descendo as escadas da casa hoje repartida entre quase todos os filhos.

Voinha é vaidosa. Vivia sentada na calçada em frente da casa enquanto alguém lhe penteava o cabelo, lhe fazia as unhas, lhe empetecava tal cousa e lousa. Fanática por doces, hoje só pode diet. Da última vez, comprei-lhe balinhas de banana, dessas sem nada a não ser a fruta. Já inteiramente cega, abriu o papel com expectativa, para depois de pô-la na boca, deitar-se no meu colo dizendo “hummmm… Que delícia!” Comeu tantas quantas pôde, sem remorso. Se derrete toda quando eu pergunto se tem alguém no mundo com uma voinha mais linda do que eu.

Nas minhas idas a Salvador, ganho horas no Buraco da Gia. Vou direto vê-los. Encontro-a deitada em sua cama, para eu chegar abraçando, beijando e carinhando. “Adivinha quem é?”, falo eu no pé de seu ouvido. “É Gabriel?” Responde ela. “Sou eu!”, e ela responde com um sorriso do tamanho do mundo, me agarrando num mata-leão pelo pescoço, “Meu neto!”. Agora, sim, quer ir para a sala. Sentamos no sofá, ela de um lado, meu avô do outro, eu no meio. Sempre de mãos dadas com ela e de conversa mole com Voinho. Ela faz carinho, puxa minha mão, dá beijos. Intercalando vez, pergunta como vão meus filhos, Carolina, meus irmãos, meus sobrinhos, cônjuges de todos. De ávida memória, pergunta de cada um e faz questão de dizer as datas. Quer mostrar que lembra, que algo nela ainda funciona. Já quase não pode escutar, caminha com dificuldade. Diz Valter Hugo Mãe em seu “a máquina de fazer espanhóis”, “ser-se velho é viver contra o corpo.” Mas para carícia, não há idade máxima.

Voinho oferece um café, passado na hora. Aceito sem nem pensar duas vezes. Fui acometido por uma curiosidade enorme sobre sua vida. Quero saber, de cabo a rabo, do começo ao fim. O que começou devagar, “nem tem tanta coisa assim para contar”, agora se abre com mais desenvoltura.

São 9 filhos, entre naturais, adotados e puladas de cerca. Cidades, estados, negócios, falências, pintura, amores, amigos, trabalho, causos. Há muito e há belo.

A cumplicidade dos dois é emocionante, e de certa forma, apaixonada.

Voinha é ciumenta.

O que passa é que Voinho foi um galanteador na juventude. Os galanteios viraram querer bem, e tome gente a querer estar perto do Careco. Homens, mulheres, novos ou não, pouco importa. Ao mesmo tempo, ele é a peça central que mantém a família com unicidade. Para Voinha, no entanto, basta rabo de saia desconhecido e desenxabido circundar o marido que há de lhe roubar o homem. Ela toma medidas drásticas. Protege seu quintal com afinco e destemor. Uma vez, há alguns anos, dizia-se cansada, sem querer levantar-se da cama. Ouviu, ao fundo, a voz de uma mulher. Perguntou a minha tia quem era, que respondeu que era uma amiga de meu avô que tinha vindo vê-lo. Pois num pulo pôs-se de pé, vestiu-se, tomou seu banho de perfume e saiu correndo atrás de meu avô, para divertimento de todos.

“Sei bem o que ela quer com ele. PEREZ!”

Este ano eles completam 58 anos de casados.

Juntos, inseparáveis.

Para meu avô, a certeza de que sua vida hoje tem como objetivo único cuidar de minha avó. O faz com todo zelo, no máximo que pode. Ainda forte, embora sustos tenham ocorrido, carrega, dá banho, alimenta. Nunca, nem por um segundo, reclama. Ela é a velhinha dele, e ele é o velhinho dela.

“Perez!” Ela o chama, para que ele venha ter com ela. “Que foi?”, pergunta ele dando-lhe as mãos. Ela nada diz, puxando-o para que ele se sente ao seu lado. Ele sorri: é a sua declaração de amor. E ali, de mãos dadas, namoram à sua maneira a vida que lhes resta.

***

Amo estes dois com todo amor do mundo, até a lua e voltando. Este dia dos Avós é deles.

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Já que é Dia dos Avós, tem também as histórias de minha avó e de meu avô.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e mais tantos outros lugares e personagens fascinantes.

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