Nelson Rodrigues escreveu que o primeiro Fla-Flu aconteceu 40 minutos antes do nada. Peço licença à poesia que eleva o clássico carioca ao impulso originador do universo para afirmar: teve Ba-Vi na preliminar.

Porque, assumamos a lógica que o gajo Fernando Pessoa já rabiscou há muito: o Ba-Vi é o mais belo clássico do mundo porque é o clássico jogado na nossa aldeia.
A grandiosidade da história da bola se faz em cima das rivalidades locais. É a referência do vizinho que sacramenta a dualidade de quereres que impulsionam a paixão. No nascer do futebol, tudo era a rua de cima. Além de onde a vista alcançava, era longe demais.
Na limitação da comunicação, conta o exemplo da admiração. É o pai, o irmão, o tio, o dono da venda. É a prima, a mãe que diz que não liga, mas é torcedora, sim, senhora.
É a marca indelével do evento inesquecível, presenciado quando ainda menino, que nos molda e transforma tudo em memória.
As cores dos mantos sagrados das agremiações de logo-ali é dos nossos primeiros contatos com o diferente, com o oposto. E, naturalmente, estabelece-se, na resenha inigualável do escárnio baiano, o querer pintar-se a partir do clube pelo qual se aprende a torcer.
Rivalidade local é segurança. O mundo pode se acabar em dinastias, mas em casa haverá sempre o rival para reduzir as complexidades do alheio às suas insignificâncias, reconduzindo o caminho a um mundo mais simples.
Não existe, pois, time grande sem arquirrival. Não existe poderio apaixonado sem o outro do lado. Se hoje sou Vitória, é porque existe o Bahia.
Fui forjado torcedor no degradê da Velha Fonte, entre o azul-vermelho-e-branco e o vermelho-e-preto, onde famílias se juntavam para comer amendoim de toda sorte e tomar sorvete de 3 sabores. Fui talhado nos barrancos enlameados do entorno ainda insalubre do Barradão.
Fui aperfeiçoado nos amigos que se acompanhavam em campanhas heróicas, porque a confraternização entre os nossos valia mais do que a rigidez da torcida intransponível.
Cresci no meio de gente acima de tudo baiana, todos juntos e misturados. Formávamos uma das mais lindas festas já vistas, ao som de foguetórios e batuque mais chuva de papel picado, para recepcionar quem subia o vestiário rumo ao tapete verde da glória.
O que fizeram para que se rompesse tão severamente esta realidade?
Apelo a quem de direito: preservem o Ba-Vi. Está em jogo um capítulo fundamental daquilo que somos.
E neste sábado, dia 08 de fevereiro de 2020, obedecendo ao pré Big Bang do Ba-Vi inaugural, revejo o calendário para acomodar a verdade inquestionável dos fatos. Assim como o ano útil no Brasil só começa depois do Carnaval, o futebol mundial só começa pra valer no calendário depois do primeiro Ba-Vi.
Feliz Ano Novo, minha gente.

Crônica também está no site do Futebol S/A!