Maradona não é novidade, por supuesto. Aqui neste Correio, edição especial detalhou sua trajetória. Também nas minhas tortas linhas, foi personagem principal. Por exemplo em 2018, quando numa Copa do Mundo sem destaques individuais, o coloquei na condição de melhor da competição.
Na esteira, veio um conto sobre como se davam alguns ritos da igreja dedicada ao barrilete cósmico. O apelido, aliás, surgiu durante o gol eleito como mais bonito da história das Copas (aqui, abro parênteses: o de Pelé na final de 58 o supera, mas gosto pessoal é isso, e vamos em frente) quando, em êxtase e querendo chorar, Victor Hugo Morales narrou Maradona enfileirando ingleses nas quartas-de-final da Copa de 1986. Narrador que é, por sinal, uruguaio radicado na Argentina desde 1981.
E se no primeiro gol daquele mesmo jogo houve intercedência da mão de Deus, dali para elevá-lo a Deus de sua própria religião foi um salto narrativo natural.
(Pese-se, por sinal, os fatos enfileirados, como a Guerra das Malvinas e seu clímax no México, e uma época que começava a transformar boleiros em estrelas mundiais muito além do esporte – como se fazia a Michael Jordan).
Argentina acima de tudo
Conta a piada que o melhor negócio do mundo é comprar um argentino pelo quanto ele vale e vendê-lo por quanto ele acha que vale. Um claro exagero anedótico. Ter convivido há décadas com argentinos me coloca na posição de poder afirmar que eles, sim, valem muito. Comparados ao Brasil, têm engajamento político-social e conhecimento sobre o vizinho incomparavelmente superiores. Argentinos sepultaram as memórias da Ditadura. Argentinos sabem da história do Brasil, enquanto aqui sequer podemos dizer quando se deu a independência rival. E argentinos têm, sim, um senso de valor próprio realmente exacerbado. É cultural.
E veneram o futebol brasileiro. Admiram de verdade os craques de cá. Conceito, aliás, oposto na forma como atuamos. Se no Brasil, em linhas gerais, a batalha é para diminuir o adversário, com eles é sobre elevação. Os próprios são sempre os maiores. Se não forem, fabrica-se. E se dizerem que estão exagerando, dobram a aposta e criam igreja ao ídolo-mor.

Fé que atrai gentes de todo espectro. Coisa de década atrás, em minhas atividades como consultor de negócios numa multinacional, trabalhei com um argentino. Diretor de projetos da empresa, carregava, orgulhoso, carteirinha de fiel da Igreja Maradoniana. Espantei-me; acreditava que a igreja era ficção, lenda urbana. É como se eu o tivesse ofendido.
Ofendi-o vez mais quando perguntei se era praticante, ou se aquilo era um chiste. E justificando sua crença, lançou mão da carta do sobrenatural inexplicável. Hincha fanático do Boca, o diretor colocava Maradona num pedestal como representante do fervor argentino.
Em 2016, uma propaganda argentina da Quilmes brincava com o Brasil, ao dizer que, numa pesquisa para encontrar o melhor frio do mundo para gelar uma cerveja, encontrou no futebol brasileiro o pecho frío (gíria que se refere àqueles sem alma) ideal. É o tanto que enxergam o brio como fator-chave para identificação.
Maradona era isso
Maradona era isso. Era o exemplo completo da alma argentina. Do sangue nas veias, da genialidade, da imperfeição, da humanidade. O mais humano dos deuses, de acordo com o também uruguaio Eduardo Galeano. Era espelho do povo argentino, um Deus à imagem e semelhança dos homens, divindade que nacionaliza vizinhos em reconhecimento de momentos sublimes que não se limitam a fronteiras.
Gabriel Galo é escritor
Artigo publicado na edição impressa e no site do Correio da Bahia em 30 de novembro de 2020. Link AQUI!
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