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A invasão argentina de São Patersburgo

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Escrito por Gabriel Galo

Nos jogos de estratégia das guerras já lutadas, São Petersburgo – uma vez Petrogrado, outra, Leningrado -, encravada no Golfo da Finlândia, era alvo e fetiche dos invasores. De mais fácil acesso que Moscou, foi capital até 1918. Vinham os oponentes pelo noroeste europeu. As ofensivas em território russo consagraram o General Inverno, que aniquilou frontes e sacrificou vidas, protegendo a terra.

Os tempos são outros, mas os bravos argentinos ignoraram o histórico e puseram-se em movimento. Com o verão russo a seu favor, buscaram trens, carros, ônibus, aviões e o que mais houvesse rumo à capital cultural da Rússia. Em seus peitos, o orgulho que transborda sangue alviceleste. E suas mentes a necessidade de apoiar Messi e seu bando. Além disso, apenas a vitória interessava e tinham eles planos de ficar mais uns dias por ali.

Transportaram, assim, o clima de Libertadores para dentro dos comedidos ares russos. Esquentaram o ambiente em brados que saíam do estômago, com volúpia, com fervor. Assumamos, brasileiros: é a Argentina o verdadeiro país do futebol. No que os bons ares emanados dos calculados vinte mil argentinos dentro do estádio, fora outros tantos sem ingresso nas imediações, contagiaram o grupo.

Messi espantou o semblante preocupado para um focado. Longe das cabras da propaganda, acarinhado pela massa, estava visivelmente mais leve. Pois num lance magistral, como sói ser de sua lauda, dominou lançamento com classe superior, adiantando a bola sem deixar cair pro pé ajeitar jogando-a ali mais pra frente, tirando do alcance do zagueiro, abrindo o ângulo para o arremate cruzado que abriu o placar. Correu um aliviado Messi para o abraço da horda que via sua meta sendo cumprida. Vamos, Argentina!

O problema é que o bando de Messi, no sentido organizacional do futebol é, enfim, um bando. Na volta do intervalo, o trôpego Mascherano fez pênalti tolo, prontamente marcado pelo apito turco. O gol doeu fundo na alma de todos os argentinos, onde quer que estivessem. Viram depois a Nigéria dominar, perder gols, não sofrer riscos. Di Maria outra vez mal, Higuain quem?, Dybala plantado no banco. O contestado e desarranjado Sampaoli caminhava de cá a lá na área técnica. Talvez na mexida do esqueleto viesse a epifania que ele implorava por não ter a mínima noção do que fazer: “e agora?”

O relógio corria, a torcida argentina não se calava, Maradona proferia caras e bocas canastronas. A tensão era notada, sentida, inalada. Sairia por cima uma vez mais São Petersburgo, que nem invasão de torcida permite sem destroçar quem ousa suplantá-la.

Os jogadores em campo perdiam a cabeça. Não havia mais técnica, ou tática, muito menos lógica. Partiram pro abafa, no peito, na raça, com Mascherano sangrando, com pressão no árbitro, com gente chorando, com desconfiança, com certeza, com esperança.

Um cruzamento da direita, aos 43 do segundo tempo, depois de mais uma bola afastada pela zaga nigeriana, encontrou a defesa um tanto desajustada. No que Rojo, desajeitado e desengonçado lateral esquerdo argentino, canhoto e canhestro, fazendo as vezes de centroavante, pegou de direita em cheio, num sem pulo destinado apenas ao fundo das redes.

Catarse. Escândalo. Espetáculo. Maradona mandando o dedo pro mundo. Sampaoli pulando solitário comemorando a salvação do próprio pescoço. Já o de Rojo era montado por Messi. Vibração eufórica da torcida que substituía a tensão de antes pela alegria incalculável de agora. O choro doce da vitória, o grito incontido, as veias saltadas. O corpo era a expressão máxima de um povo para quem não existe pecho frío.

Se o clima desde a largada era o de espelhamento de Libertadores, o enredo reservou contornos épicos. Um clímax maravilhoso escrito a punho pelos deuses do futebol. Triunfo com luta, com suor, com sangue, com dificuldade, com herói improvável, com Bombonera e com Monumental. Celebra-se de Jujuy à Tierra del Fuego a superação de um grupo por muitos tido como perdido. Abriu-se, por fim, a exceção histórica para a glória dos invasores em São Petersburgo, que se rende, sucumbe à massa e se submete a uma Argentina que é grande demais.

* Gabriel Galo é escritor.

Crônica publicada no site do Correio da Bahia em 26 de junho de 2018. Link AQUI!

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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