Crônicas

Amigo secreto da firma

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Escrito por Gabriel Galo

It’s the most wonderful time of the year!

Assim canta a famosa música natalina na voz de Andy Williams e alçada ao panteão da eternidade pelo filme Esqueceram de Mim. “É a temporada mais feliz de todas!”, está lá na letra. O Natal, este feriado tão perfeitamente adequado ao outro hemisfério para lá do Equador, causa comoção, enternece corações. Crianças sentam no colo de vermelhos Papais Noéis fedendo a cigarro em shoppings espalhados pelos quatro cantos para que este momento potencialmente amedrontador seja captado instantaneamente nas redes sociais.

Como o mundo é feito de contrastes, ao mesmo tempo em que o urso polar da Coca-Cola tenta ligar bomba de açúcar a felicidade e os shoppings gritam promoções implicando que o tanto que se gosta é diretamente proporcional ao preço do presente, há os vilões, que operam nas sutilezas (ou nem tanto). São muitos. Tem o vilão tradicional, cara de mau, muito mal: o Grinch. Figura que não decolou por estas bandas, afinal, o nosso Natal já é roubado todo ano sistematicamente, espalhado em doze prestações mensais. Tem a vilã musical, Simone, e seu inesquecível hino. Tem a vilã alimentar, a uva passa. Tem o vilão em forma de gente, o tio que bebe e fica pegando as sobrinhas no colo com mão leve, ou a tia que pergunta “quando você vai casar? Passou da hora.” E tem também o vilão ocasião: o amigo secreto (ou amigo oculto) da firma.

Coca-Cola, Papai Noel, Natal

“Faça alguém feliz.”

O amigo secreto da firma é a versão “jantar de família disfuncional” travestida de mundo corporativo. Amigo Secreto tem personagens dignos de um conto de terror de Stephen King. Apenas uma minoria aceita e não reclama. Porque todas as frustrações, as decepções, o ódio contido, o ressentimento, tudo transborda neste maléfico evento. É o entretenimento macabro que brinca de faz-de-conta-que-somos-unidos-e-nos-adoramos, mas no dia seguinte tudo volta ao normal de ninguém se importar com ninguém e estar mais preocupado com as férias, levando o serviço de freio-de-mão puxado.

O personagem mais emblemático é a “tia empolgada”. Aquela pessoa que quer porque quer organizar tudo. Diz o valor do presente, chama todo mundo, insiste, marca o lugar, cria evento por email e pelo Facebook, compartilha fotos de outros anos. Ou seja, uma chata de galochas. As mais pretensamente antenadas no palavriado cult-cool do business society afirmam se tratar de team building. Afirmam, criando motivo, “é uma desculpa para juntar todo mundo.” Minha amiga tia empolgada, já existe uma desculpa muito mais poderosa para juntar todo mundo. Se chama EXPEDIENTE. Junta todo mundo diariamente, inclusive.

A maioria dos participantes é composta por gente que não queria estar ali, “mas, sabe como é, é festa da empresa, tem que ir.” Você puxa o papelzinho e lê “Janecy” e além de não conhecer a pessoa, nem consegue dizer se é homem ou mulher. Rola então aquele trabalho investigativo de descobrir primeiro quem é Janecy, qual o fenótipo e o genótipo (tempos modernos, afinal) e do que gosta, para, por segurança, tudo se traduzir num vale-compras da C&A – mas pelo menos você fez a sua parte, que orgulho, parabéns!

Alguns optam por uma festa democrática, quando o mais simples se une ao mais sofisticado. O auxiliar, para quem 50 reais é uma fortuna e o diretor, que compra algo muito valioso para mostrar seu valor, poder e superioridade, como uma caneta ou um peso de papel.

Os mais sádicos, essa raça de gente ruim que acredita que a evolução do ser humano é uma camisa da Dudalina e uma varanda gourmet, inventou o jogo do capeta, pensado para que toda a maldade armazenada possa, por fim, ser exposta. Abre-se a caixa de Pandora com o Amigo Secreto Ladrão. O jogo é simples: o objetivo é causar o máximo de dor em todos os participantes, – mas principalmente o Ricardo, aquele sacrista odiento! Todos têm o seu Ricardo… –, e que alguém possa se sentir o mais esperto dos espertos. Uma aula de team building!

A expectativa do grande dia reside no improvável. Vê-se o brilho nos olhos de todo mundo: será que tem fofoca quente hoje? Aquela vontade de olhares empolgadamente contidos trocados com um ar juvenil.

“Minha amiga secreta é uma pessoa que tem um caso com o Juscelino da Logística!” Silêncio. “Vem pra cá, Renata!” “Sabia…”

“Meu amigo secreto tem bafo e assedia todas as mulheres do departamento!” “Arnaldo, certeza.”

“Meu amigo secreto pinta o cabelo e acha que ninguém percebe que fica ridículo.” “Otávio, tão falando com você.”

“Minha amiga secreta está claramente acima do peso, mas suas roupas continuam as mesmas.” Quase todos se olham, impossível dizer quem é exatamente.

Um festival de horrores em presentes que NADA tem a ver com o presenteado.

Conheci uma pessoa que ganhou de presente uma bolsa de marca famosíssima e chiquetérrima. Como a presenteada não gostou daquele modelo – mas, uau, que presentão! –, foi até a loja para trocar, e descobriu in loco, entre vergonha e raiva, que se tratava de uma bolsa falsificada alojada na sacola de verdade. Eu, por exemplo, já ganhei livro do Merval Pereira, algo equivalente a ganhar um livro de crônicas do Rodrigo Constantino ou um jantar com o Bolsonaro. Outra, ao ganhar presente de um muito humilde colega de trabalho, não se conteve e sem abrir o envelope soltou um estranho “Ah, coitado!” O caso mais comum é o tamanho absolutamente errado das roupas, tudo sempre muito menor do que o que caberia. “Melhor não correr o risco de achar que eu estou chamando a outra pessoa de gorda, né?”

No bar agora uma senhora grita “vamos começar?” Ninguém responde. “Ai, gente, ânimo!”

(assim como pedir calma a quem está nervoso, pedir ânimo a quem está desanimado tem efeito exatamente contrário ao desejado.)

Ela continua. “Quem começa?” Mais uma vez, silêncio. “Tudo bem, eu começo.”

Sucedem-se sorrisos amarelos em fotos desfocadas. Presentes desembalados e surpresas desagradáveis. Alguém ganhou uma caixinha de cápsulas de Nespresso, “Adorei, só falta a máquina agora.” No teatro de falsidades, a chefe aclama (superioridade hierárquica deve ser demonstrada a todo o tempo): a conta é minha hoje! As pessoas vibram, no que ela se vira para a assistente e pede para lançar na conta da empresa.

No amigo secreto da firma nada é o que parece ser.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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