Contos Vã filosofia

Claudio e Marilene

Escrito por Gabriel Galo

“Poucas coisas se parecem tanto com a morte quanto o amor realizado. Cada chegada de um dos dois é sempre única, mas também definitiva: não suporta repetição, não permite recurso nem promete prorrogação. Deve sustentar-se “por si mesmo” – e consegue. Cada um deles nasce, ou renasce, no próprio momento em que surge, sempre a partir do nada, da escuridão do não-ser sem passado nem futuro; começa sempre do começo, desnudando o caráter supérfluo das tramas passadas e a utilidade dos enredos futuros.

Zygmunt Bauman, em Amor líquido.

Quando o Claudio conheceu a Marilene, sabia estar diante de uma pessoa diferente. Já se via no tipo. Cabelo afro muito bem cuidado, roupas longas a lembrar as antigas mortalhas do Carnaval de Salvador, maquiagem que ressaltavam os grandes olhos de jabuticaba, colares, pulseiras, adereços não faltavam. De fala mansa e sorriso no rosto, Mari, como preferia ser chamada, era dessas figuras cativantes. Apaixonante. Fazia o homem se derreter todo.

Era cheia de atributos, a morena. Físicos, intelectuais, afetivos.

Podia-se conversar por horas, de Brecht a Nietzsche, de Rousseau a Rand, filosofia, teatro, conhecimentos… E quando falava de Shakespeare, então? O sagrado encontrava o profano, impossível conter a lascívia.

Porque vinha com um corpo escultural, esculpido pelas ladeiras do Pelourinho, onde vivia. Aquele sobe e desce fizeram crescer, tentarei aqui, na figura do narrador onisciente, segurar também a minha libido, e direi, apenas, que o vai e vem delineou uma bela bunda.

Agora, para que se faça jus à Marilene, peço que as duas últimas palavras do parágrafo acima sejam ditas de boca cheia, com vontade, bochechas infladas de ar que explodem para fora liberando uma dose extra de feromônios, testosterona e uma descarga de luxúria. Fez? Muito bem.

Voltando, Claudio e Marilene.

Claudio era professor de Filosofia em Portugal. Tinha vindo para o Brasil numas férias de verão com alguns amigos. Inclusive, com a Verônica, sua noiva na época. Escolheram Salvador, com seus encantos e mazelas, prato cheio para os estudiosos do homem e da alma.

No que o grupo acabou se perdendo no dia de visita ao Pelourinho. Vendo-se sozinho, com fome e sofrendo no inclemente sol baiano, entrou no primeiro arremedo de restaurante que viu.

Com a vista ainda se ajustando à oscilação da luminosidade, apenas conseguia discernir um vulto que se chegava.

– Bom dia, meu branco, lascou-se a dizer Marilene, cheia de um sorriso encantador.

Há de se dar um desconto aqui pro Claudio, coloque-se no lugar dele e veja o que a ocasião não faria. Calor, um pouco desidratado, com fome, vista embaçada, e ainda aquele jogo de luz todo? Não tinha como não se apaixonar por aquela voz e chamego.

Alguns acreditam que Mari fazia essas coisas de propósito. Outros acreditavam que tem que coisa que é pra ser, e assim ela era, sem esforço nem pensamento.

Ela o levou até uma mesa, fê-lo sentado, e, presenciando seu estado quase catatônico, pôs-se a buscar uma água de coco para que se lhe recobrasse os sentidos. Numa golada apenas, Claudio fez-se aliviado e agradecido. Conseguiu, finalmente, falar.

– Boa tarde, disse ainda com voz um pouco trêmula e fortíssimo sotaque português.

– Boa tarde, meu amor. Com fome? Veio pro lugar certo!

Aquela intimidade toda mexeu ainda mais com o gajo, que já a amava, imaginando reciprocidade.

Era o primeiro cliente, restaurante vazio. Mari era a dona do estabelecimento, e recebia a todos com o mesmo sorriso de sempre. Supervisionava a cozinha com mão de ferro, receitas da avó dela, as quais tratava como relíquias. Conhecendo o tipo e o momento, virou-se de pronto:

– Pois fique tranquilo, que hoje eu cuido do senhor.

E quem não haveria de deixar?

Empanturrou-se na moqueca de arraia, pirão de leite, farofa de dendê e arroz, com uma pimentinha daqui, ó, daquelas de se falar com pontas de indicador e polegar segurando o lóbulo da orelha. Suava, limpava a longa testa branca com um lenço que carregava no bolso da camisa, para alegria do povo, que se deliciava com a gula do gringo.

– E aí? Fiz sucesso?
– Ô!

Nunca tinha ficado tanto tempo sem palavras e com isso não estava acostumado.

Movimento fraco, ela se sentou à mesa com o patrício e desataram a conversar. Ao saber se tratar de um professor de Filosofia e ainda com um título de sociólogo a tiracolo, perguntou se ele concordava com Bauman e Ivan Klima quando diziam que poucas coisas se parecem tanto com a morte quanto o amor realizado.

O nó na cabeça de Claudio não mais se desfaria, nem seus pensamentos poderiam mais ser contidos. Marilene ali, dividindo mesa, seu perfume invadindo seu espaço, o suave frescor de sua pele que se fazia sentir quando ela o tocava antes de perguntar-lhe algo.

Era muita reticência para a pouca força de seus pontos finais. Já nem se importava com Verônica ou seu grupo de amigos. Na verdade, sequer lembrou-se deles.

No adiantado da hora, era hora de fechar o restaurante. Ela pediu para que ele ficasse mais um tiquinho. Acompanhou o fechamento, muxoxo ao ver o caixa do dia, dispensou os empregados. Foi até a mesa, apenas estendeu-lhe a mão, ao que ele respondeu sem desgrudar o olhar de seus grandes olhos negros.

Ela o guiou escada acima, onde morava. Lá, comandou o que ele jura ter sido o momento mais sublime de sua vida. Ela sempre de olhar firme contra o dele, resoluto, confiante e entregue. Rendeu-se às curvas, ao cheiro, ao sabor e aos desejos de Mari.

Algumas horas mais tarde, voltou cambaleante ao ar de fim de tarde do Pelourinho. Seu inconsciente o guiou de volta ao hotel, onde deitou-se atônito e claramente cansado. Ao ver, depois de um tempo, que Verônica entrava, pôs-se rapidamente de pé, lavou o rosto, e ali mesmo, sem ter nem porquê, terminou o relacionamento.

Voltou no dia seguinte, ofegante e esperanço, ao encontro de Marilene. Era cedo, mas não tão cedo. Naquela manhã, observou melancólico sua agora ex-noiva ir-se logo cedo ao aeroporto, tomou café sem demora, sorria que não se continha. Avoado, não se deu conta do um pouco atrasado da hora. Ao chegar ao restaurante, viu Mari já sentada com seu novo Claudio, distribuindo charme no zelo com o cliente.

Fez-se visto apenas pela fresta da janela. Ela sorriu de mansinho, como a dar-lhe as explicações necessárias.

Se ele fora apenas mais um, ela tinha sido única, e, para sempre, se sentiria mais realizado, embora diminuído. O que não necessariamente lhe acalmava a alma.

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

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