Eleições 2018 Ensaio Política

Debater política é baixar o tom de voz

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Escrito por Gabriel Galo

É urgente baixar o tom do debate  nas conversas políticas no Brasil. Somente assim poderemos ver a razão se reinstaurar sobre a emoção exacerbada e manipulada para cegar.

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Há algumas poucas semanas, logo após o atentado contra Jair Bolsonaro, a sua ativa militância sentiu o golpe. Com a ausência de seu líder supremo, foi um momento de relativa calmaria dentro da histeria que se tornaram estas Eleições 2018. Não coincidentemente, foi também o período em que Fernando Haddad mais cresceu como candidato. Suas intenções de voto recebiam a deixa da indicação de Lula, como, aliás, era esperado e medido desde o começo. A rejeição do ex-Capitão permanecia nas alturas e durante um breve momento o petista chegou a ser favorito na disputa. Isto se manteve até que, por fim, Bolsonaro pôde retomar sua agenda após recuperar suas forças e jogar fogo na fogueira de ódio e de abandono do bom senso que se tornou o Brasil.

De fato, o tom da narrativa indica a repetição da estratégia utilizada em outros países, notadamente nos EUA de Trump e no Reino Unido do Brexit. Apela-se ao estômago para ressaltar emoções e a partir delas construir uma narrativa em que sua figura surge como solução única, mesmo que tenhamos que abrir mão de algumas coisas. O perigo mora na extensão destas ‘algumas coisas’ que podemos deixar de lado na ‘luta contra o mal maior’. Afinal, caberá a alguém definir o limite do cerceamento dos direitos, e não estamos nos atentando à gravidade do que isto significa, exatamente por não ser possível. O foco, a atenção plena está voltada ao inimigo a ser combatido.

O filósofo austríaco Karl Popper (1902-1994), um dos mais influentes escribas do século passado, em seu livro “The Open Society and Its Enemies” escreveu sobre o que chamou de “Paradoxo da Intolerância”. Este conceito apresenta que, no ambiente social, a tolerância ilimitada leva, paradoxalmente, ao desaparecimento da tolerância. Traduzindo Popper ao âmbito da democracia (que seria a tolerância transformada em política), a democracia ilimitada leva, paradoxalmente, ao desaparecimento da democracia. Vide Duterte, Erdogan e Chávez.
Apesar dos inúmeros exemplos no crescimento de flertes não-democráticos dentro da democracia, não aprendemos a dialogar com este público manipulado por sentimentos viscerais exacerbados. E não devemos entender que ‘com eles não há diálogo’. Há de se criar um jeito. E de maneira evidente, o que tem sido feito não somente não funciona, como amplifica o alcance das ideias contrárias e solidifica a posição dos mais exaltados.

Primordialmente, portanto, é urgente baixar o tom do debate. O ocorrido naquela semana em que Haddad cresceu comprova que é possível e que é a única saída. Desta vez, há um desafio desproporcional a ser superado, afinal, Bolsonaro está desimpedido para perpetrar sua narrativa. A questão é: como?

A Psicologia indica uma alternativa. E ela passa pelo entendimento de técnicas de negociação com reféns.

O principal item desta tática é nunca confrontar o sequestrador. O confrontamento leva, sem exceções, ao limite da inconsequência. Na defesa ferrenha de sua posição, na tentativa de provar-se correto, não importando desenvolvimentos potencialmente nocivos a si próprio, vê-se a escalada da irracionalidade.

Os negociadores em situações de alto risco são pessoas experientes, altamente treinadas. Porque pouco importa o que sentimos ou nossas vontades. Importa, substancialmente, a resolução pacífica (ou com mínimo dano) do impasse. E suas atuações consistem em entender os fatores de impacto pessoal na decisão do sequestrador. A partir dali, procura se aproximar do outro lado, cria empatia e uma consequente simpatia. A mensagem é “estamos no mesmo barco, queremos que tudo acabe bem”. Fundamentalmente, baixa-se o tom da conversa sempre. Invariavelmente. A tranquilidade, mesmo que conduzida, provoca um restabelecimento da razão sobre a emoção. E, com isso, aumentam-se as chances de um fim sem dor.

(Adendo importante. Não estou dizendo que os apoiadores de Bolsonaro são sequestradores ou criminosos. Longe disso. Estou tão somente observando seu estado de mente, que se aproxima dos que se verifica em situações de alto risco. Há um desejo essencial que alimenta um comportamento violento, justificado por uma dor sentida e manipulada para ganhar força. Nesta configuração, jogam-se os riscos para o alto pelo fim daquele sentimento tão caro – e real! – a cada um.)

Portanto, o apontamento genérico dos erros e mentiras de Bolsonaro não vão funcionar. O discurso “fascista” – ou “ele não” – não vai funcionar. Chamar de ‘ignorantes’ ou ‘burros’, muito menos. Perceba como isto exagera o posicionamento do confrontado, que tem como primeira reação, provar-se correto e ponto final. Quando há um embate, defende-se a postura adotada e vai-se com ela com mais afinco.

O trabalho é, por isso, meramente individual. Conversar com cada votante, entender suas motivações. Conduzir a conversa de maneira a se aproximar, criar uma ponte entre os lados. Uma vez compreendidos os fatores que solidificam uma posição, conduz-se para que se questione, sem intimidação, a lógica aplicada.

O problema é que os votantes de Bolsonaro são muitos. Um exército alimentado avidamente por uma fábrica de fake news que se apoderou do aparelho digestório alheio. O maior fronte deles: o anti-petismo. Além disso, o outro lado não possui – e não é de se questionar que não possua este conhecimento, porque desenvolvido por poucos especialistas – o conhecimento necessário para aplicar eventuais técnicas de negociação com reféns como guia de interação com o outro lado. Além do que, se o anti-petismo é o catalisador de emoções à flor da pele, não seria o PT o adversário ideal, porque dá vida e realidade ao medo infundado. Além do mais, Haddad, com a retaguarda petista, mostra-se incapaz de liderar esta frente pela razão, interessado que está em mostrar que estão certos e ponto final.

Com isso, está na mão de cada um a responsabilidade por um fardo impossível de se carregar. Diante do desafio colocado, e na impossibilidade de se aprofundar num tema tão importante quanto desconhecido, a única sugestão possível é: procure baixar o tom. Abandone os discursos exaltados, mesmo que como réplica. Respire fundo, acalme-se. Aproxime-se do outro estendendo a mão. Vamos conversar? Numa boa, sem exaltações, sem dedos apontados, sem acusações. Trabalhemos para que a razão possa ser reinstaurada. Lembremos: é a própria democracia e a civilidade que estão em xeque.


O Alex Castro escreveu sobre como se levar uma conversa política. Leia AQUI.


Karl Popper, razão, Papo de Galo


Nelson Rodrigues, idiotas, Papo de Galo


 

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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