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Dia 3: Seu Amarildo

Escrito por Gabriel Galo

Igatu, 27 de janeiro de 2017

Tentamos sair às 09 horas, sem sucesso. Havia uma feira de roupas na frente da casa onde estamos ficando, o que deixou Angélica doida, e tome bater de barraca em barraca, pechinchando, negociando e acumulando presentes. Relógio já passava das 10 quando, finalmente, entramos no carro rumo a Igatu.

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A estrada para Igatu é terrível. Parte dela é tombada como patrimônio histórico, o que dá a justificativa para o poder público não mexer em todos os seus 7 quilômetros de extensão. Exige muito do carro, que vai vagaroso, lutando para não raspar nas pedras mais altas. Via em que passa apenas um veículo, melhor torcer para que outro não venha no sentido oposto. Em alguns trechos nem é possível chegar mais para o lado. E como resolver? Ainda bem que não passamos por nada do gênero.

Você chega à pequena e pacata cidade numa viela mais do que simples. Casas quase sem calçada, gente encostada na janela. Algumas casas exibem artesanatos, uma das principais atividades da cidade. Não tem muito o que se fazer em Igatu. Paramos numa praça onde nos deparamos com o CAT – Centro de Apoio ao Turista. Lá dentro fomos recepcionados pelo Amarildo, que nos contou quais eram as cachoeiras mais próximas, as que precisavam de guia, as que tinham água, e por aí vai.

Daqui a pouco volto para o seu Amarildo.

Seguimos para Cadeirinhas, uma queda d’água que ainda resiste à falta de chuvas. Ficamos um tempo por lá. Na volta, máquina fotográfica em mãos, saí tentando captar o que a cidade tem a oferecer: uma vida simples e nenhuma ambição.

O que não é o caso de Amarildo.

***

Na pequena casinha na praça, dividindo espaço com uma mesa esporadicamente ocupada pelos Correios, trabalha Amarildo dos Santos, 53 anos, nascido e criado em Igatu. Sem nem muito precisar dar corda, ele começa a contar da sua vida, da sua história.

Vale menos pela história em si do que pelo entusiasmo com que conta.

Hoje casado e com uma filha de 20 anos, Amarildo está alinhado. Camisa xadrez vermelha e preta, calça jeans e sapato fechado.

– Faz 30 anos que me visto assim, todos os dias. Me sinto bonitão, alinhado. Conta orgulhoso de seu asseio.

Uma outra característica, sua marca registrada, como gosta de dizer, ele solta rapidamente.

– Só tiro foto sério.

Pergunto por que, insisto, até que ele conta que se acha mais bonito sisudo.

– Cada um tem sua marca registrada, certo? Essa é a minha.

O papo vai fluindo, e toda vez consigo tirar o simpático senhor dos eixos. Ele abre largo sorriso, mas resoluto, sai de perto para fechar a cara e voltar ao normal. Tem coisa aí, penso, e os passeios podem ser adiados. Quero saber mais de Amarildo.

Na sua mesa de trabalho, um livro de fotos do Araquém Alcântara, “Chapada Diamantina” divide espaço com uma Caras, uma outra revista com a Marina Ruy Barbosa na capa, algumas pastas-arquivo contando coisas de Igatu (“quais bandas tocaram na cidade”, “celebridades que estiveram por aqui”, coisas deste tipo) e dois pequenos chumaços de papel cujas capas apontavam títulos em colagem de letras de revistas, uma ilustração simplória e bastante ruim e até mesmo indicação de edição, uma delas já na oitava.

– O que é isso aqui, Amarildo?

– Estes são 2 dos meus livros. Tenho 12 lançados.

Os títulos na mesa são sugestivos. “A minha fascinante história como fã número 1 de Xuxa Meneghel” e “A minha história de vida como fã do cantor Roberto Carlos”.

Nos outros livros, ele conta a origem dos nomes dos povoados garimpeiros da região; conta 53 curiosidades sobre a cidade de Igatu; e, realmente me surpreendo com a informação, sua autobiografia.

– Chama “Amarildo dos Santos, o cidadão do bem”.

Peço para folhear. No que ele consente, vou primeiro no da Xuxa. São cerca de 15 páginas, escritas a mão em letras enormes, sem contar muita coisa, sem dar muito detalhe. Numa página enumera os itens que possui da dita Rainha dos Baixinhos:

“- DVDs

– Revistas

– Discos de Vinil”

E a lista segue com mais alguns poucos itens.

Me assusto com o preço: Amarildo cobra 25 reais por cada “livro”.

Estava mais do que óbvio que ali se apresentava alguém com um senso de grandeza que ultrapassava o limite do razoável. Não precisava de muito para que ele se sentisse importante.

Eu estava curioso para saber mais de sua história.

– Em Igatu tinha escola só para aprender a ler. Como eu queria mais, e meu avô foi morar em Mucugê, em 1979 meus pais me mandaram para lá. Contribuíam com o que podiam, uma feira de vez em quando. Mas não deu muito certo, briguei com meu avô e fui pulando de casa em casa, parentes, amigos, conhecidos, até me formar no Magistério em dezembro de 1985. Minha irmã mais velha veio para a minha formatura, e meus pais, orgulhosos, me deram de presente uma passagem para ir pra São Paulo.

Amarildo é o terceiro filho de uma família de 10 irmãos. Ele conta que dos 8 ainda vivos, 4 moram em Igatu, 3 em São Paulo e uma irmã está em Brasília.

– Quando cheguei a São Paulo comecei a procurar emprego e a trabalhar. Queria retribuir o esforço dos meus pais. Mas também não deu muito certo. Fiquei um ano e meio por lá, e não conseguia trabalho que me desse oportunidade. Queria crescer, sabe? Foi quando eu decidi voltar para Igatu, e vim resolvido: queria casar, ter a minha própria casa, ter família. Foi então que comecei a colecionar coisas do Roberto Carlos e da Xuxa.

Pergunto por que Xuxa e Roberto Carlos. Ele não sabe responder, além do “eu gostava muito deles”.

Quando voltou para Igatu, logo foi contratado pela Prefeitura, em 1987, sua empregadora até hoje, para ser professor. Durante 7 anos lecionou na rede municipal.

– Mas aí eu cansei do magistério. Não queria mais lidar com criança, com barulho, com briga… Depois disso fui telefonista até criarem este emprego aqui para mim, onde já estou há 12 anos. Saí da escola para escrever e catalogar coisas de Igatu.

Foi quando, diz ele, a sua vida começou a mudar. Passou a ser conhecido na cidade. O reconhecimento infla o ego do nosso contador de história.

– O mundo todo está aos meus pés! Exclama sem esconder o orgulho.

Vez ou outra, a filha ou alguém da cidade vem contar que ele saiu em algum portal. Fala de uma reportagem no UOL, conta repetidas vezes de quando a Xuxa mandou um beijo para ele num programa em maio de 1998.

– Conquistei tudo o que eu pretendia. Sou um sucesso.

Querendo exemplificar o quanto se considera hoje importante, conta uma passagem com sua irmã mais velha, a mesma que veio de São Paulo para sua formatura e que o abrigou em sua rápida aventura em território paulista.

– Vou falar para vocês uma coisa que não conto para ninguém. Durante muito tempo eu tinha inveja da minha irmã, a mais velha, de São Paulo. Ela era o orgulho da família, sabe? Até que eu pude falar para ela “minha irmã, sem querer ofender, mas durante muito tempo eu tinha inveja de você. E não é querendo ser desrespeitoso nem nada, mas hoje posso dizer sou muito mais conhecido que você, todo mundo sabe quem eu sou.”

Ele nos convida para ir conhecer a lojinha dele. Na placa lê-se “O Ponto! Entre aqui e compre alguma coisa… Amarildo dos Santos”. Lá dentro, centenas de revistas com Xuxa na capa.

– Tenho mais de 400.

Dentre os souvenires, até mesmo uma embalagem de tinta para cabelos. Muitos discos de vinil, alguns CDs. Pergunto dos filmes com ela, em especial dos dois primeiros, um pornográfico quando ela era totalmente desconhecida e o polêmico “Amor, estranho amor”.

– Estes aí eu não tenho. Se você conhecer alguém que tenha, pede para mandar para mim.

O Rei tem menos destaque. Na verdade, há muito pouco de Roberto Carlos no ambiente. Sua verdadeira obsessão parece ser a Xuxa.

Ele senta no sofá, se esparramando e distribuindo indireta.

– As pessoas vêm aqui, ouvem uma música, veem uma televisão, tomam um licor e compram alguma coisa.

Num móvel atrás da televisão, centenas de revistas Playboy. Pergunto porque ele não fala sobre elas.

– Ih, rapaz… Tem coisa que a gente não conta, não! Guardo porque é um desrespeito jogar fora tanta mulher bonita. E vai que uma delas fica valendo uma fortuna? Se você quiser, pode comprar uma dessas aí por quinhentos, mil reais.

Não a coleção. Uma.

Numa parede, exibe fotos com famosos, ou alguns nem tanto assim. Cantores, atores, políticos, repórteres e outros tantos, posando para fotos com um carrancudo Amarildo.

– Vou querer bater uma foto sua! Nunca vi homem tão alto na minha vida! Amanhã mesmo vou imprimir para colocar aqui no meu mural.

Ele pergunta meu nome. No papel que usa para colar as imagens, escreveu “o homem com mais de 2 metros de altura”. Acho graça.

Na foto, tento fazê-lo rir, mas ele consegue ficar sério em pelo menos uma. Será a que vai colocar no mural.

Ou talvez. Antes, tinha mostrado umas fotos que tinha feito dele na casinha do CAT. Consegui pegar Amarildo sorrindo desprevenido, enquanto contava sua saga.

– Mas só vou colocar se você não publicar uma foto minha sorrindo. Olhe a honra que você vai perder, deixar de aparecer no meu mural de gente famosa.

Para ele, entendo, não existe homenagem maior que estar ali entre os grandes de suas visitas. Prometi não colocar as fotos dele sorrindo. Nos despedimos com um aperto de mão. Ele volta para o seu CAT, esperando por mais alguém que o faça se sentir grandioso, seu alimento para continuar sua jornada, incluindo uma desejada pitada de inveja dos seus.

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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