Crônicas Minhas histórias

Em busca de Caetano

Caetano, Moreno, Zeca, Tom, Ofertório, música, show
Escrito por Gabriel Galo

Como uma ligação no meio da tarde de uma terça-feira qualquer, dia 22 de maio de 2018, se transformou numa jornada de busca de Caetano.

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A LIGAÇÃO

Era terça-feira, dia 22 de maio, por volta das 15 horas, quando meu telefone tocou.

– Alô, é o Gabriel?

– Sim, é ele.

– Oi Gabriel, aqui é do Deezer, tudo bem? A gente sabe que você é um dos que mais escuta Caetano Veloso na plataforma e gostaria de fazer um convite. Vai ter um evento aqui na sede do Deezer nesta quinta-feira às 16 horas e estamos convidando você para ouvir o novo disco de Caetano e filhos, o Ofertório, antes do lançamento. Você consegue vir?

– Depois de amanhã?

– Isso.

– Vou.

– Ótimo! Vou mandar um e-mail para você confirmando endereço, horário, tudo certinho. Ok?

Instintivamente, com um quê de paranoia infundada, olhei em volta para me certificar de que não havia câmeras escondidas pelo apartamento. Afinal, naquele exato momento, eu escutava a minha playlist com as músicas de que mais gosto justamente dele, Caetano! Como eu não tinha nada programado para aquela que certamente seria uma amena e ensolarada tarde de outono na megalópole paulistana, topei no ato. Havia, no entanto, uma ponta de dúvida: seria aquilo verdade? Os questionamentos foram ralo abaixo quando, no dia seguinte, recebi o e-mail e prontamente confirmei a minha presença.

O QUE É CAETANO

Das minhas poucas lembranças de infância em Salvador é acordar nos fins de semana e já deparar com meus pais acordados. Na vitrola, já se ouvia Geraldo Azevedo, Milton, Alceu, Gil e principalmente Caetano. Tanto meu pai quanto minha mãe eram fãs do fruto de Santo Amaro da Purificação (eu li Pura Ficção?), santíssima cidade do santíssimo Recôncavo Baiano. Deles herdei toda a discografia de Caetano (até o Fina Estampa) e Milton (até Angelus).

“Louis and the Good Book”, de Louis Armstrong, foi lançado em 1958 e foi minha introdução ao jazz e ao gospel.
Do som riscado dos bolachões que se sucediam, tive meu primeiro contato, amor à primeira nota, pelo Jazz e Blues de Louis Armstrong e seu magnífico “Louis and the Good Book”. Adorava as notas possantes de “Help”, dos Beatles. Tom Jobim dignificava o piano com sua bossa, Elis invadia e tomava posse com sua voz, emudecia ao som magnífico da viola do sertão de Elomar, Djavan ainda não havia cantado músicas de galáxias e dinossauros… A lista é longa e, sem medo do exagero, gloriosa. E voltava a Geraldo, a Milton, a Alceu, a Gil e a Caetano.

Cresci com um apreço mais do que especial por aquele que se fez referência musical no meu amadurecimento. Com a idade ampliando-se aos dois dígitos, suas letras ganhavam significado. As referências das conversas de adultos que eu entreouvia começavam a fazer sentido. Quando o papo já estava qualquer coisa e um já se via pra lá de Marrakesh, eu sabia do que falavam! Que descoberta maravilhosa essa de não ser mais tão estranho ao mundo dos mais velhos.

Como criança que era, alguns de seus significados me escapavam – e ouvi da voz de Caetano em seu show com os filhos que o que é Jenipapo Absoluto, por exemplo, também já se lho escapa. (Opa! Estou me adiantando à prosa. Voltemos à tenra idade…)

“Kalu” é um baião composto por Humberto Teixeira (1915-1979) a pedido de Dalva de Oliveira. A canção foi lançada em 1952 e já foi gravada em 68 idiomas, por gente do quilate de Edith Piaf e Eartha Kitt.
Gradativamente, no crescendo da maturidade que vinha, à forte memória afetiva foi sendo adicionada uma profunda admiração pela letra e música de Caetano. Se quando ainda muito novo minha mãe nos embalava cantarolando “Kalu”, depois “Haiti” virava uma aula de história da Bahia. Suas frases aqui e ali bradavam realidade e genialidade.

Afinal, podemos duvidar de que os versos de “Podres Poderes” quando indagam “Será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América Católica que sempre precisará de ridículos tiranos?” são atuais e pintam um retrato indelével da partição sul de nosso continente?Outras canções de Caetano tocam fundo e suscitam emoções poderosas. “Boas Vindas” tornou-se hino do nascimento de minha filha. “Canto do Povo de um Lugar” me fecha a garganta, sinal de algo mais que não consigo identificar, além da necessidade incessante de celebração à vida. “Oração ao Tempo” foi fundamental no meu luto pela morte de meu pai.

Sua importância no meu desenvolvimento cresceu, à óbvia sua revelia. Até alcançar o patamar de hoje, de ídolo que me deixa sem ação e embasbacado com aquilo que faz. Caetano arrisca, abraça novos nomes, testa novos sons. É poeta, filósofo, cantor, músico, e tudo o mais que escolhesse ser, o é em alta monta.

A EXPECTATIVA

Quando chegou a quinta-feira, ponguei na bicicleta e atravessei bairros de São Paulo rumo a Pinheiros, no local indicado no e-mail. Havia, no entanto, uma pulga atrás da orelha.

Capa do DVD de “Ofertório”.

No dia seguinte e mais o sábado, Caetano estaria na cidade com os filhos no Espaço das Américas, lançando o seu novo trabalho, Ofertório. Pronto!, pensei: ele vai estar lá. Segui pedalando num misto de expectativa e certa euforia, que eu tentava controlar no melhor de minhas habilidades.

Ao chegar, cerca de 10 minutos antes do horário agendado, não havia movimentação mais acelerada na entrada do escritório. “Não chegou”, pensei eu. Fui recebido pelo Vithor, que me levou ao segundo andar da casa/prédio que é a sede do aplicativo de música. Lá, um casal já havia chegado. Via-se comes e bebes e aquela vontade no ar: “cadê Caetano?

Daí o tempo avançava para além das programadas 16h de relógio. E a gente lá, “ele vem, claro que vem, ele está aqui em São Paulo!”, porque a esperança é a última que morre. Sobem então alguns da Deezer, abrindo o jogo até onde era possível: “gente, era realmente para ele vir… Esperamos até onde pudemos, mas ele realmente não vem. Ele pegou uma gripe e achou melhor ficar no hotel.”

Era, afinal, verdade que ele iria, do verbo não vai mais. A nossa decepção era indisfarçável. Mesmo assim, ficamos para ouvir o novo álbum em primeira mão, antes do lançamento oficial no dia seguinte.

OFERTÓRIO

Pude, então, ouvir um espetáculo de generosidade. Caetano, líder, abriu espaço. Varreu sua discografia unida a composições próprias de cada um dos três: Moreno, com mais desenvoltura pelo maior tempo de estrada; Tom e sua tímida voz atrás de vasto sorriso; e Zeca, revelação de uma força musical poderosíssima em seu primeiro trabalho. Ademais, incluiram no set list Gil em sua época de Doces Bárbaros e até mesmo uma canção de Alexandre Peixe e Dito Martins, “Deusa do Amor”, sucesso do Olodum na década de 90. É perceptível a preocupação de que Caetano não faça sombra sobre os filhos, para que brilhem por si.

O trabalho final é formidável. O minimalismo dá o tom da gravação. São combinados de vozes, assovios, violões, baixo, teclado, pandeiro, prato (o de comer), sintetizadores e lixas (as de parede). As 28 faixas do álbum somam cerca de uma hora e meia que passa num piscar de olhos. É som para se ouvir com sorriso no rosto, de olhos fechados, viajando na memória, no embalo das vozes dos Veloso.

Antes de irmos embora, duas surpresas.

A primeira, ganhamos um presente da Deezer. A segunda nos encheu de expectativa uma vez mais. A Universal e a Uns Produções garantiam um par de ingressos de cortesia para o show de sábado, dali a 2 dias, com direito a visitar o camarim após o espetáculo.  Receberíamos a confirmação por e-mail.

Era, uma vez mais, a chance de encontrar Caetano.

A gente na sede do Deezer, em busca de Caetano.

A EXPECTATIVA, PARTE 2

O tal e-mail da produção não chegou na sexta-feira, dia seguinte. O sábado amanheceu sem nada apitar na caixa de entrada. Já estava quase resignado quando, durante o almoço, finalmente entrou o que tanto era esperado: 2 ingressos para o show de logo mais.

Capa de “Letra Só”, coletânea de composições de Caetano.

Eu era felicidade pura. Minha esposa, devidamente informada do que poderia vir, compartilhou da expectativa. Confirmamos presença instantaneamente. Havia, então, chegado o grande dia. Como tiete, separei sua ‘autobiografia’ “Verdade Tropical” e a coletânea de composições “Letra Só”, além do disco “Jóia” para que pudessem ser devidamente autografados.

O Espaço das Américas estava completamente tomado pelo público. Buscamos nossos ingressos sem dificuldade. Tomamos assento.

Quando enfim subiram ao palco, o minimalismo do álbum se refletia também na montagem da produção. Caetano, na largada, mostrava uma voz riscada, que em volume diminuto falava se poupando, resultado da gripe que persistia. A virose não foi obstáculo suficiente para que cantasse com sua bela e afinada voz.

Palco de Ofertório, de Caetano, Moreno, Zeca e Tom Veloso.

De 1 a 28, na mesmíssima sequência da gravação, reproduziram o repertório sem alterações ou sobressaltos. Ao vivo, no entanto, adicionavam-se os comentários entre as músicas. O entrosamento entre os quatro era nítido. Era como se estivessem folgados e soltos na sala de casa, à vontade.

Eu, com tanto de Caetano em tantos momentos da vida, tomei uma rasteira por sua presença. Imaginando-me tendo superado diversos destes momentos que me travavam a garganta, vejo que eles voltam com força. “Canto do Povo de um Lugar” continua difícil de cantar, “Boas Vindas” me leva às lágrimas, “Oração ao tempo” me faz chorar copiosamente.

No fim do espetáculo, esperados e merecidos aplausos de pé. Havia, enfim, chegado a hora: AO CAMARIM!

SÓ QUE NÃO

Na fila que se formava no backstage, éramos os comuns em meio aos da música, aos da família, aos amigos. Maria Gadú logo ali, Seu Jorge acolá. Entramos e ouvimos ao fundo Paula Lavigne pedindo desculpas a outro grupo. “Caetano está muito gripado, já foi embora.”

Mas será o impossível!

Vou ter com ela. Apresento-me. Ela pede, atenciosa, mil desculpas. “Ele inventou de ir essa semana a eventos, subiu em trio, fez uma festa. Aos 75 anos! Pode uma coisa dessa? Agora está aí, gripado.”

Capa do álbum “Jóia”, de Caetano, em versão única.

Moreno, Zeca e Tom, saudáveis!, lá estão. Busco cada um para um dedo de prosa, de agradecimento, de elogio. Em todos os três, o sorriso se destaca. São gente de quem se quer ser amigo instantaneamente. Há uma leveza no ar, uma felicidade genuína por fazerem parte de um projeto tão bonito, tão singelo, tão bem-sucedido. Tiro as fotos padrão e faço um pedido inusitado para eles, o que se recusaram de primeira, mas cederam: autografar o “Jóia”. Agora posso dizer que tenho uma preciosidade em exposição na parede de casa, algo único.

Na saída, alta noite já se ia, alguns na estrada andavam. São Paulo não pára. Ainda havia tempo para uma saideira com amigos. Contei a história do cabo ao rabo. Empolgado, enfatizei que buscassem ouvir o álbum assim que possível. É magnífico.

Quanto a mim, apesar da segunda frustração de encontro com o ídolo em 3 dias, saí com a sensação de que esta história ainda não encontrou seu fim. Sentimento corroborado por Paula Lavigne em nosso curto papo, antes de puxar Zeca para que eu pudesse conhecê-lo, ao prometer: “nós temos o seu contato. Vamos fazer vocês se encontrarem.”

Sigo em busca de Caetano.

ÚLTIMA IMPRESSÃO

Caetano já não é mais assim tão novo, apesar da disposição e saúde que mostra. Os últimos espetáculos que promoveu apresentam, possivelmente, os últimos capítulos de uma carreira que ultrapassa 50 anos. Correu o Brasil com Gilberto Gil, numa reconexão com o germinar de sua história. Agora é a vez de apresentar os filhos em seu trabalho. Não como participação especial ou inspiração, mas sim como consequência, como seu melhor e mais belo trabalho.

Ofertório talvez possa ser interpretado como uma preparação para um adeus que se avizinha. Como se dissesse “fiquem agora com o que se segue”. Oferta seus filhos como o próximo passo de um legado que ultrapassou seu próprio quintal. Caetano mora forte dentro de cada um de nós. É um privilégio poder falar “eu vivi para ver Caetano cantar”.

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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