Crônicas

Empatia é exercício

empatia
Escrito por Gabriel Galo

Falta-nos empatia. O conceito foi deturpado, virou gíria cult dos empoderados-topzera-coaching-coworking-Vila-Madalena. Ou seja: perdeu valor. Virou argumento de fofura de comercial de banco.

O problema advém, em especial, do entendimento incorreto de qual o papel de cada um para interpretar empatia. Pensamos “se fosse eu…” para analisar cenários, mas o exercício é “se eu fosse ele.” Parece óbvio, mas não é. A transposição à pele do outro é tarefa complexa. A direção da mutação faz toda a diferença; não é aquela pessoa que vem até mim, eu que vou até ela. Para muitos, a capacidade máxima de “empatia” é se algo semelhante acontecesse com você no seu ambiente. A partir desta óptica, tudo é um castelo de cartas. Afinal, empatia não é sobre você, companheiro. Quem faz este exercício de empatia, na base do “se fosse eu”, no fundo, é ególatra buscando redenção, lobo em pele de cordeiro, gente metendo o bedelho na vida alheia sem qualquer intenção a não ser promover-se como alternativa viável. Egoísmo em sua forma mais disfarçada.

No grupo de Jovens Administradores do qual faço parte, fizeram um folder para mostrar nossas atividades. Somos um grupo diverso. Nordestinos, orientais, mulheres, negros e brancos, gente de origem humilde ou não, funcionários, empresários, servidores públicos e desempregados. Na capa do folder, 5 belos jovens brancos como a neve. Sugeri a mudança de foto, para eu ser, no primeiro momento, alvo de chacota. “Politicamente correto, pô! Logo você?” E eu vendo aquele absurdo “Não é questão de politicamente correto. Esta foto não sou eu, não é você, não é o grupo. E certamente não é a maioria dos estudantes de Administração que cursam faculdades de segunda linha nos subúrbios de São Paulo. Esta foto é um muro entre nós e eles.”

Era um muro. Vai ser mudada. Ainda bem.

Da mesma forma, os “empreendedores” de revistas da moda de negócios – há menos diferenças entre Vogue e Você S/A do que você gostaria de supor – são brancos ricos com sobrenome estrangeiro que ficam ainda mais ricos no clube que não aceita forasteiros. Enquanto isso, gente corre atrasada atrás do ônibus pedindo desgraçadamente para que o povo do ponto avise ao motorista para ele parar.

Não é um obstáculo, uma parede, nem um muro; ascensão social é uma Muralha da China guardada por armados exércitos para evitar invasão de gente diferenciada.

No trem onde trafego frequentemente entra um senhor de cadeira de rodas, pedindo ajuda. Diz ele “não estou pedindo esmola, estou pedindo ajuda para minhas duas filhas doentes.” Crie o seu conceito e seja o que Deus quiser. Segue ele dizendo que pode ser pobre, pode ser deficiente, mas não é mentiroso. “Quem quiser pode vir comigo na minha casa no Capão Redondo.” Na pauta, conferir se as filhas estão realmente necessitadas. Em silêncio, ninguém se habilita. Mais a mais, sua cara não é amigável. Tem no rosto o ressentimento e o ódio. Apela. “Para vocês, dinheiro não vai fazer diferença. Vocês gastam duzentos reais para ir num show de pagode.”

Eu rio por um segundo. Meu caro senhor, se a pessoa gasta duzentos reais para ir a um show de pagode, claramente, quem tem problema é ELA.

Ele falhou miseravelmente na criação de empatia. “Me dê porque você pode” é exercício de extorsão e de desespero. Ele certamente sente que não tem escolha. Estar ali subindo de vagão em vagão, humilhando-se perante tantos desconhecidos, virou sua única alternativa. Imputar culpa, “quem não me der dinheiro é um desalmado” é sua maneira de manter um mínimo de sua dignidade, de sua honra. E quem poderia dizer que faria diferente estando ali no lugar dele?

Na era do ressentimento, empatia é exercício diário, árduo, trabalhoso, repetitivo.

Os pedintes nunca estão nas arborizadas e esterilizadas ruas dos bairros nobres. Em teoria, são aqueles que podem contribuir bem mais, certo? Mas não. Estão no centro, nas estações de trem e metrô, nos pontos de ônibus, onde há abrigo. Não abordam os de terno ou bem vestidos. Abordam os comuns. Gente que pode se ver como eles. Que não dificilmente, se tomassem uma esquerda errada na estrada da vida, poderiam estar ali em seu lugar.

Empatia é trocado e pode garantir o almoço.

Colocar-se na pele do outro, muitas vezes, é também admitir seu próprio privilégio. Ao mesmo tempo, a morde-se ferozmente e arranca-se da alma um naco ao fazer perceber-se incapaz de enternecer-se pela causa alheia.

Criou-se uma horda de Gabrielas, gente que nasceu assim, que cresceu assim, que é mesmo assim e será sempre assim. Equiparam-se ao xucro, ao que não evolui. Àquele que acredita que mudar de ideia é sinônimo de derrota.

A capacidade rir de nossas escolhas, características e ideais é mais relevante que as causas que defendemos ardorosamente. Exige-se coragem para lutar pelo que acreditamos, mas ainda mais para questioná-lo depois de ter despendido muita energia para assegurar sua posição.

O comportamento é diretamente proporcional: quanto maior o ardor e o sacrifício, maior o rabo preso, portanto, mais complicado é abrir mão.

Aos idiotas cabe a certeza eterna.

Empatia é questionar-se o tempo inteiro, confrontar-se com aquilo que você tem mais sagrado: seu próprio umbigo. É assustador. Todos conhecemos os monstros que queremos manter quietos dentro de nós.

Empatia é, sobretudo, amparo, conexão. “Conta comigo, estou do seu lado.”

Empatia é um abraço e não aceita julgamento. “Eu sinto a sua dor.”

E se carregássemos isto todos os dias, estou certo, estaríamos num lugar muito melhor agora. Colocariam as coisas sob uma perspectiva diferente. E poderíamos, quem sabe, diferenciar o joio do trigo.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e mais tantos outros lugares e personagens fascinantes.

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