Crônicas Crônicas da Copa 2018

Eu tento simpatizar com a Bélgica, mas…

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Escrito por Gabriel Galo

Sabe, eu tento simpatizar com a Bélgica. Acredite, eu me esforço. Mas a barreira é enorme… Questão de estereotipização, por motivos alheios ao futebol. A gente cresce, envelhece, quer evoluir, mas o mundo joga contra, mais que o Fernandinho em jogo eliminatório de Copa.

Porque para quem nascido e criado na Bahia, os belgas têm uma cara de menino amarelo da zorra. De gente abestalhada que chora e faz biquinho quando acaba o Danoninho, que dão piti quando trava o PlayStation, que jogam bolinha de gude no tapete da sala, que se não forem pra Disney esse ano a vida não merece ser vivida. Fossem brasileiros, seriam orgulhosos moradores de Leblon-Ipanema-Jardins-Itaim. Suéter no ombro, polo pra dentro da calça, sapatênis, cerveja artesanal, sorvete de 79 reais uma bola, tudo caro-sem-noção pra poder bancar o custo do storytelling, eufemismo da moda para mentira da braba, culhuda, caô, lorota, potoca, balela, conversa fiada, pra boi dormir, patacoada.

Eu sei, eu sei, que pessoa horrível, mas não julgue o belga sem terminar de me ouvir, criatura. Seguinte é esse.

Aí lá vou eu ao LinkedIn (por que a gente se tortura dessa forma, meu senhor?). Terra arrasada em que o apocalipse será um congresso de coaches que tentarão bater o recorde mundial de mais pessoas falando tudo sem dizer nada. Fui ter por aquelas bandas mesmo depois da xófem reclamando que o evento de networking dela não era visto como mais importante que a Copa, porque, né, ela é formada na Escola Michel Temer de Auto-Estima da Porra. Mesmo depois de tais ricardos amorins (deixa em caixa baixa) e afins espalhando fake news e frasetas moralóides. Mesmo depois dos posts repletos de platitudes e chalatanices do tipo “7 lições da eliminação da Alemanha“. Blá-blá-blá, mimimi e idiotia são premissas básicas na rede dita profissional (sic).

Ou seja, não foi por falta de aviso. Mouco e tolo, resisto. Ignoro a experiência, calo a voz que sai de dentro gritando na orelha “sai dessa que é roubada. Você é mininico agora, é, disgrama?”

Pois eis que de cara, sem nem preliminar, de prima, pá!, põe na tela, QUERO IBAGENS!, vejo um ser humano vestido com a camiseta da Bélgica. Fico curioso. Pra quê…

No texto moralóide que acompanha, a explicação de que “pra Bélgica a gente pode torcer, Brasil é que não dá, a gente é tudo uns atrasado”. O mesmo de sempre, o discurso da superioridade moral, de acordo com ele mesmo, o arauto do avanço, fusão de Elon Musk com Steve Jobs e Osho, ó, divindade suprema!

E se você é da laia de São Tomé, que precisa ver para crer, creia (e se o estômago permitir, veja depois) quando afirmo que, porque miséria pouca é bobagem, o cara é a mistura do capeta com o demonho e com o michel temer (já avisei da caixa baixa) de cueca. Desconjuro! Raciocine comigo e veja se não estou com a razão.

O sujeito é o típico brasileiro de regalias e privilégios. Tal qual os coleguinhas que embarcaram para a Rússia, pertence à classe do novo produto exportação brasileiro, o BBB+B: Branco rico, bombado, babaca e de barba. Só isso já seria suficiente. Mas tem mais. O subsolo do inferno tem filial na varanda onde ele gravou seu vídeo (sim, porque chumbregagem precisa de diversas mídias comprobatórias do crime). O cara, além de BBB+B, é também STARTUPEIRO, INFLUENCER, coach motivacional e escritor de ‘livros de AUTO-AJUDA’ (sic).

Ou seja, a descrição exata de como seria o décimo círculo do inferno de Dante.

Valhei-me, minha nossa senhora da crença-que-eu-não-tenho. Expulsai o filhote do capiroto topzera, mano!, das timelines de minha vida! Vade retro!

Tudo isso pra dizer que eu tento gostar da ‘ótima geração’ Bélgica. Mas não dá, bicho. É muito reforço negativo nessa zorra. Haja Lukaku na causa pra superar tamanho desmantelo.

Garçom, fecha a conta que pra mim deu por hoje.

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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