Ensaio Política

Governo Bolsonaro será uma blitzkrieg de retrocessos

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Escrito por Gabriel Galo

Muitas das propostas do novo governo são polêmicas e baseadas em falsas premissas. Para fazê-las caminhar, abusará da blitzkrieg, tática de ataque-relâmpago que não oferece tempo de preparação de defesa. E pode vencer pelo cansaço.

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A fala da Ministra Damares Alves no dia de sua posse que viralizou ontem, 03 de janeiro, assusta a boa parte do país. Disse ela, “Atenção, atenção. É uma nova era no Brasil. Menino veste azul e menina veste rosa!” Depois, pula em comemoração com os seus. A cena dantesca tem até participação de uma bandeira de Israel. (Ué? Não Brasil acima de tudo?)

O desconforto causado pelas palavras padronizadoras atende ao apelo geral de que existe um jeito certo de se viver a vida. E que é tarefa dela expandir – no sentido de forçar, obrigar, empurrar – este conceito a todos, amealhando novos fiéis. Some-se a isso as confusões mentais pautadas pelo desconhecimento, como não saber diferenciar Enem e Sisu, e confundir Comissão da Verdade (extinta em 2014) com Comissão de Anistia, agora sob sua responsabilidade.

Acontece que Damares é apenas um item da coleção de absurdos que vão pautar o governo Bolsonaro daqui pra frente. E a tática se assemelha à da blitzkrieg, que é uma “guerra-relâmpago, uma tática militar em nível operacional que consiste em utilizar forças móveis em ataques rápidos e de surpresa, com o intuito de evitar que as forças inimigas tenham tempo de organizar a defesa.”

É justamente aí que há a chance de que vinguem as ideias estapafúrdias de uma administração que busca repetir o que deu errado na esperança de que dê certo. (o que fortalece a ideia de que só resta torcer).

Aprendendo com Temer

Vai que o cavalo fala…

Certo homem foi condenado à morte por um rei. No dia de sua morte, como últimas palavras, afirmou ao rei ser encantador de cavalos, que podia fazê-los falar, se ele pudesse treiná-los por 3 anos. O rei, apaixonado por cavalos, pagou para ver.

Na volta, um companheiro de cela, ao ouvir a história, retruca, “mas fazer cavalo falar é impossível!” E o homem responde, “Isso eu sei. Mas vou viver mais 3 anos. E no final, vai que o cavalo fala…”

Quando puxou o tapete da inapta Dilma Rousseff, Michel Temer inaugurou um período de “vai que“, que lembra a fábula do homem que poderia fazer um cavalo aprender a falar. Eventualmente soltava arremedos de projetos e de intenções, testando os quereres e reações de mercado e da opinião pública. Se colasse, valia. Se não, abandonava como se nada tivesse acontecido.

Bolsonaro entendeu que esta tática não funcionaria. Munido de seu conhecimento militar, o que se propõe agora é um bombardeio relâmpago, que não se sabe de onde vem. E alguma coisa acaba passando – no fim, talvez até tudo.

De um lado, Damares distribui impropérios.

Madeireiros invadem terras indígenas, respaldados pela convicção da não punição por conta do arremedo que se pretende fazer da questão.

Bolsonaro anuncia aumento do IOF, contrariando todo seu cabedal de propostas.

Em dada hora, discute-se até a extinção da Justiça do Trabalho.

Fala-se do aumento do mínimo por estar abaixo do orçamento, mas esquecem da lei que atualiza de acordo com a inflação e que o primeiro valor era, por óbvio, meramente orçamentário que seria ajustado no fechamento das contas de aumento de preços.

Tudo junto, misturado, ao mesmo tempo, numa overdose de desmantelo. Não há tempo de se organizar. Não se sabe de onde virão os absurdos, só se sabe que virão. Então, como combater? Como apelar para algo tão fragmentado e ao mesmo tempo tão sincronizado?

O que se quer

O objetivo é superestimular a opinião pública até que não seja capaz de assimilar mais nada. A confusão pela blitzkrieg vence pelo cansaço. E abandona-se o fronte de batalha pela absoluta estafa.

Assim, agora na base do blitzkrieg político-ideológico, ajusta os ponteiros o novo governo. Não que não seja algo esperado. Tanto pelo contrário. Todas as ações foram amplamente debatidas, discutidas, exibidas, mostradas, detalhadas em campanha. Não surpreende absolutamente ninguém.

A questão é não esmorecer

Durante os primeiros anos da Segunda Guerra Mundial havia um sentimento de que a Alemanha Nazista dominaria o mundo por seu vasto poderio e suas táticas avançadas de guerra. Até que tentou morder um bicho maior do que poderia digerir e pagou pela sua ambição exagerada.

O que nos remete a este 2019 no Brasil. No ponto zero da luta pela manutenção da democracia e pelo progresso civilizatório, a blitzkrieg parece imbatível. Será apenas se nos rendermos a uma tática tão vil quanto avassaladora.

É necessário reagrupamento e discernimento na seleção das batalhas que serão lutadas. Muitos dos itens, por mais absurdos que sejam, deveriam merecer menos destaque, como, por incrível que pareça a fala de Damares. Sabe por quê? Porque o que ela falou é, tão somente, baboseira de uma gente que está claramente deslumbrada pelo poder. Não há fato ali inserido que altere o regimento legal ou executivo.

Devemos virar o olhar para o que realmente importa. É fundamental que se priorize a pauta, que não nos percamos nas miudezas em detrimento do que é relevante. Caso contrário, a reação será exatamente a planejada pelos arquitetos da blitzkrieg e vamos ter falado muito, mas evitado nada.

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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