Ensaio Política

Bomba relógio

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Escrito por Gabriel Galo

As diferenças irreconciliáveis entre as alas que compõem o governo Bolsonaro é um barril de pólvora esperando pela primeira faísca para explodir de vez.

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A gente tende a olhar para os desdobramentos do governo Bolsonaro e prestar especial atenção aos absurdos daqueles que deveriam ser o seu primeiro escalão, em uma sucessão de trapalhadas que evidenciam o desrespeito direcionado ao Presidente pela sua própria equipe. O que aflige, no entanto, é quando observamos alguns outros itens que tornam este mandato uma receita perfeita para que não chegue ao seu último minuto regulamentar: as divergências fundamentais, talvez irreconciliáveis, entre as linhas de conduta que o Presidente abraçou.

No fim da semana passada, Steve Bannon, arquiteto da organização e da ascensão da extrema-direita mundo afora, jantou com Olavo de Carvalho nos EUA, em evento acompanhado de perto pelo Estadão. Os dois dedicaram boa parte da conversa a debater Paulo Guedes e sua agenda liberal. Bannon externou o quanto isto o desagradava: o nacionalismo que defende é visceralmente protecionista, e a Escola de Chicago, como é chamada a linha econômica de Guedes, atrapalha este avanço.

Em artigo em 20 de janeiro também no Estadão, José Fucs detalha a miscelânea das bancadas internas do governo em seu executivo. Ele concatenou os nomes em 6 grupos de influência, sendo eles os Políticos, Militares, Liberais, ‘Lavajatistas’, Evangélicos e Olavistas. E, mais alarmante, no fogo amigo entre posições por vezes opostas, justamente os Liberais e os Lavajatistas vêm perdendo vez.

Estes entreveros vão minando justamente os dois pontos que fez grande parte da população arriscar votar no projeto Bolsonaro nas últimas eleições. Para muitos, a agenda liberal é necessária, e foi o que fez migrar, por exemplo, tantos votos do Novo para Bolsonaro. Na outra ponta, Sérgio Moro seria o mártir da segurança jurídica e da manutenção da luta contra a impunidade, materializada no sentimento de ‘PT não’.

Na prática, ambos representam mensagens absolutamente opostas àquelas pregadas por Bolsonaro em toda sua carreira. Como político, ele lutou unicamente para defender os privilégios de militares em seus projetos.

Acontece que estes dois grupo são justamente os pilares que impedem movimentos sociais mais graves contra o governo Bolsonaro. Se deveria haver um planejamento para evitar uma precoce queda do presidente, seria a manutenção destes 2 grupos felizes. Pois, afinal, Sergio Moro é o líder espiritual do “pelo menos não é o PT”. E Paulo Guedes é o fiel da balança que poderia direcionar os potentes recursos financeiros do ‘mercado’ para financiar a opinião pública contra Bolsonaro.

Então, por quê deixar exatamente estes dois grupos às margens da influência no governo para privilegiar políticos e, principalmente, militares?

Tal qual a fábula do sapo e do escorpião, em que o sapo resolve ajudar o escorpião a atravessar o rio mesmo contra sua intuição. No meio do caminho, o escorpião crava seu ferrão, matando, afinal a ambos. Nos últimos suspiros, o sapo pergunta “Por quê?” e o escorpião em mea culpa responde, “é a minha natureza…”

Pois, em linhas simples e diretas, esta é a natureza de Bolsonaro. Tolice seria acreditar que ele rejeitaria todo seu histórico de político do baixo clero e negociações na base do toma lá, dá cá, além do militarismo latente, para privilegiar Paulo Guedes ou Sergio Moro.

Parece ser apenas uma questão de tempo para que ambos desembarquem desta aventura tosca. Paulo Guedes por conta de sua irascibilidade, batendo com a cabeça no muro da realidade e vendo que suas ideias transitam mais no mundo do impraticável. Sergio Moro por se cansar de ser arrimo de infâmias ao ser feito de marionete para emprestar credibilidade a um bando fajuto.

Sem os dois, o governo cai imediatamente.

No jogo de tabuleiro da politicagem de bastidores, talvez esteja na força dos militares o super trunfo de Bolsonaro. Ao rechear suas pastas de homens de farda, ameaça o bom andamento da democracia. Conclama, nas entrelinhas, que seus correligionários tomem sua parte em caso de tentativa de derrubada. Só que eles também estão incomodados com as acusações que assolam o governo e pedem explicações convincentes.

Mais a mais, Bolsonaro caminha a passos largos para o isolamento completo. Para vencer, aliou-se àqueles que respondiam a anseios da população, mesmo que fosse inviável que trabalhassem juntos. E quando Paulo Guedes e Sergio Moro decidirem amarrar seus burros noutra sombra, Bolsonaro será alvo de uma caçada impossível de ser enfrentada pelos meios civilizados.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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