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A história de como eu nasci

Balbininho, ginásio da Fonte Nova, ponto central da história de como eu nasci.
Escrito por Gabriel Galo
VERSÃO OFICIAL

Quem já me viu ao lado de meus irmãos sabe da dificuldade que é se manter imóvel e disfarçar a inquietação. “Ah, mentira…” é a primeira coisa que em na cabeça. O que sempre gerou muitas dúvidas e comentários maledicentes. Pronto para abraçar a ideia de que, enfim, filho biológico de meu pai eu sou, afirmo para muitos que “ou sou filho de outro homem, ou fui trocado na maternidade, ou a genética é realmente uma coisa maravilhosa.”

Esta afirmação gerou problemas sérios uma vez. Certa amiga de minha ex-mulher, ao ouvir eu falar daquilo que considero os motivos possíveis, mordiscou os lábios virando os olhinhos, “realmente, a genética é uma coisa maravilhosa…” Ok, ok, ela talvez não tenha reagido assim para a frase que ela efetivamente externou, mas deixa eu contar a minha história, fazendo o favor? Mordeu os lábios, virou os olhos,  me varreu de cima abaixo, lascívia!, “realmente a genética é uma coisa maravilhosa.”

Esta dúvida também, vez ou outra, tirava o sono de meu pai. Quando o seu inflado ego abria espaço para uma bem escondida baixa auto-estima, ele ligava para minha mãe para perguntar de quem eu era realmente filho. Mainha não descia do salto, falava poucas e boas e assim a vida seguiu.

Diz a versão oficial que Bemvindo Sequeira, ator e colega militante de meu pai, viajou para o Rio de Janeiro, vagou apartamento na semana do Natal. Pedido feito, pedido cumprido, Bemvindo liberou que o jovem casal adolescente aproveitasse a liberdade concedida. Depois de nove meses, eles viram o resultado.

Esta, no entanto, é a versão oficial, registrada em cartório e contada por aí. Como eu não sou de acreditar em documento e papel passado, numa investigação jornalística assaz esclarecedora, cheguei à verdade dos fatos. Senta que lá vem história.

O VÔLEI

Era uma época interessante do ponto de vista dos esportes nacionais. A seleção de basquete poucos anos antes tinha conseguido medalhas em mundiais, sem contar os títulos de Sírio e Monte Líbano nos mundiais de clubes. Era, efetivamente, o segundo esporte nacional em preferência. No mundo do futebol, o escrete de Telê Santana encantava plateias do mundo inteiro, goleando quem surgisse pela frente com desenvoltura. Começava a nascer, no entanto, um novo esporte no gosto do brasileiro: o vôlei.

A geração que depois foi conhecida como a geração de prata, em alusão à medalha de mesmo tom conquistada nos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984, ainda estava em formação. No ano de 1981, no entanto, o Brasil alcançou o pódio na Copa do Mundo no Japão e foi vice-campeã mundial juvenil. O esporte deixava de ser amador e adentrava a era do profissionalismo.

No fim do ano, depois destes importantes prêmio, a seleção de vôlei acertou uma série de jogos amistosos Brasil a fora, promovendo a modalidade e agradando os patrocinadores. A caravana rodou todo o Sul e o Sudeste e mais Brasília, Recife e Salvador. O Natal se aproximava quando a seleção brasileira, comandada por Bebeto de Freitas, chegou no 2 de Julho em parceria com a seleção holandesa, rival que a enfrentaria na quadra do Balbininho.

O BALBININHO

A cidade ficou em polvorosa com a presença daquele bando de pirulão. Já os treinos atraíam muitos curiosos que forçavam a entrada no ginásio para acompanhar que negócio era aquele de voleibol. Rapidamente, os holandeses, brancos como a neve com tons rosa nos ombros e rostos, arracaram suspiros das moçoilas.

O Balbininho era o ginásio poliesportivo que ficava dentro do complexo da antiga Fonte Nova. E muito próximo à casa de minha avó, no Santo Antônio Além do Carmo.

No que a insistência de amigas e a saída mais cedo da casa de meu pai por conta de minha avó levaram minha mãe junto com o bando para o Balbininho.

Sentaram-se todas nas arquibancadas do lado da quadra. Os tradicionais gritinhos logo começarem, o que divertia os gringos. Vez em quando, eles se viravam, davam um sorriso, uma piscadinha. Mainha, incólume não entendendo aquela celeuma toda, ficava quieta sem dar muita bola.

Hoje, em retrospectiva, talvez tenha sido exatamente essa postura que tenha despertado tantas paixões no selecionado Oranje.

É VOCÊ

Os camaradas se reuniam, olhavam, sorriam, se olhavam uma vez mais. Quem era aquela garota que claramente não queria estar ali? Como bons machos-alfa que eram, haveriam de dobrar a resistência! Um grupo mais afoito combinou que, terminado o treino, tentariam conversar com ela. Dito e feito.

Eram 4 caminhando em direção às arquibancadas. As amigas em polvorosa não acreditavam que eles estavam indo até elas, crentes que aquilo lhes dizia respeito. Mas tais quais exército separando manifestantes na multidão, afastaram as desavisadas até com certo desdém. Pararam na frente de Mainha, que nunca foi de não ter vergonha, e na falta de buraco para se enfiar, ficou desviando olhares.

Devo dar crédito a eles por tentarem. Gesticulavam, se mexiam. No fim da esperança, pediram para que ela voltasse no dia seguinte.

O DIA SEGUINTE

No que o amanhã se fez, as amigas foram correndo buscar minha mãe. Afinal, se havia tanta atenção para ela, sobraria rebarba para alguma outra. Mainha, no entanto, realmente não queria. Sentia-se claramente desconfortável, afinal, havia meu pai. Mas a insistência delas foi tanta que acabou cedendo e desceu a ladeira rumo ao ginásio.

Quando chegaram, os holandeses sorriram por vê-la. Não se sabe de onde, mas arranjaram um intérprete que poderia ser o elo entre europeus e baianos. No fim do treino, o mesmo grupo de 4 rapazes seguiu em seu caminho com tradutor a tiracolo. Mais 4 amigas de minha mãe completaram a equipe para estabelecer igualdade.

Eles falavam, o tradutor traduzia, elas riam nervosas, eles foram se soltando, elas também.

Resolveram as anfitriãs que levariam os atletas para conhecer o que de melhor a Bahia tinha para oferecer. Foram comer acarajé, banho de mar na praia do Porto, pôr-do-sol em Humaitá.

No que dizem, embora minha mãe negue veementemente, que o passeio terminou em festa no hotel da delegação, cada uma com seu cada qual, incluindo até o tradutor, que se deu bem por tabela. É o que dizem. Menos Mainha. Que jura de pé junto que tal coisa jamais aconteceu. Diz que foi meu pai, Bemvindo e o apartamento e tal e qual versão oficial.

Sim, pai é quem cria, mas deve ser realmente coisa da genética.

Morde esse lábio, aí, minha filha. Isso, vira o olho.

GE-NÉ-TI-CA. Essa coisa maravilhosa.

***

 

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e mais tantos outros lugares e personagens fascinantes.

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