Reportagens

A morte de Tia Tânia

O relato de Juliana de uma passagem marcante em sua vida: a morte da tia Tânia. Na fragilidade da vida que vivemos, estamos todos por um fio. Na imagem, paciente passa por quimioterapia.
Escrito por Gabriel Galo

Era a manhã de um dia qualquer quando meu telefone apitou. Na linha, Juliana, uma amiga com quem há um tempo não falava. Surpreso e feliz pela chamada, atendi para que ela pudesse falar junto com seu marido, amigo de longa data. Ela, sempre à frente, afinal, a história, como veremos, a ela pertence. Diz que tem uma história para me contar e me convida para que eu vá tomar um café com eles à tarde.

Uns dias depois sou recebido por eles e pelos cachorros no apartamento em bairro de classe média-alta da cidade de São Paulo. A ampla sala parece ter sido decorada pela filha de sete anos, que está na escola, “mais tarde tenho que ir buscá-la”, alerta o marido. Juliana está com uma certa virose contagiosa que evita o contato direto com as pessoas. “Mas está tudo bem, logo passa.”

Passam um café na hora, que evoluiu para cerveja. Durante as várias horas que seguiram, Juliana comentou de uma passagem marcante em sua vida: a morte da tia Tânia. Pergunta primeiro se tenho tempo, o que tenho aos montes. Falou, desabafou, riu, chorou. Externou aquilo que estava preso em sua garganta há anos.

A seu pedido, todos os nomes foram trocados para garantir a confidencialidade da família. O objetivo único era o de, uma vez contada pela óptica de terceira pessoa, conseguir distanciar-se da história a fim de observá-la com olhos novos e, finalmente, sentir-se em paz.

A FAMÍLIA E A MORTE

Juliana nasceu no meio de uma grande família do interior de São Paulo. Família numerosa e tradicional, dessas que se reúnem todo fim de semana para jogar conversa fora e reciclar motivos para brigas. Famílias funcionais agem assim: é na fofoca que laços constantemente se constroem e são rompidos, numa espécie de ciclo que mantém a unicidade. Ninguém quer ficar de fora sabendo que pode ser o próximo alvo da ira comentada de canto de boca e tapinha nas costas.

A matriarca, vó da Juliana, era o ponto central em torno do qual todos orbitavam. Viveu até os 98 anos, com quase todos os filhos vivos, o mesmo para cônjuges. No que os Pacheco não estavam acostumados com a morte, era para eles um conceito estranho, carregado de preconceitos, guardado no armário.

Foi um grande baque quando Camila, tia de Juliana, comunicou estar com câncer. Quem a visse, no entanto, duvidaria que assim estava. Camila saltitou sobre a doença com leveza e alegria. Num sábado, enquanto a turma estava reunida num barzinho, pediu licença, “vou ali rapidinho fazer quimio e já volto. Me esperem!” Cumpridora da palavra, Camila voltou, e os amigos (quase) todos esperaram. Os parcos sintomas – que se haviam chegado com mais força, ela escondia com maestria – aumentavam a percepção de que o câncer não passaria de um susto. E assim se fez.

A morte, para a família Pacheco, passou a ser um susto, algo que nunca vem.

TIA TÂNIA

“Tenho uma personalidade forte.” Dizia Tânia, tia de Juliana. Sabia inclusive ela ser um eufemismo para rudez e pouca educação. Não segurava a língua e era fácil perceber que quem se aproximava logo se afastava, seja por vontade própria ou seja por imposição de Tânia. Assumiu-se sozinha e vivia bem assim.

De inteligência sagaz e perspicaz, sempre fora uma mente brilhante. A genialidade de seu raciocínio talvez fosse o catalisador da destruição de pontes de relacionamento. Saída do interior aos 18 anos, foi para São Paulo para cursar faculdade e na capital ficou de vez. Tornou-se, anos mais tarde, professora de renomada faculdade.

Sua companhia no dia-a-dia eram os muitos gatos que dividiam espaço e comida em seu apartamento, convenientemente próximo do trabalho. Além dos gatos, compartilhava o tempo que restava com outras duas amigas, as renitentes, com quem as emoções tinham espaço para emergir.

A impetuosidade de sua argumentação – carregada por uma boa dose de desprezo pelo outro lado – fez com que Tânia criasse, em sua cabeça, um inimigo que era o oposto em sua forma de pensar e encarar a vida: justamente sua irmã, Camila. Não que Camila fosse pouco inteligente, mas havia no ar uma rivalidade entre as duas, quase sempre de mão única. Embora fosse vista com olhares de reprovação e inveja por parte de Tânia, Camila nutria simbólico carinho pela irmã.

Esta relação expandia o sentimento de frustração em Tânia. Camila era pergunta sem réplica; era luta sem adversário; era a que dava a outra face quando Tânia a maltratava. Não conseguia, Tânia, carregar Camila ao seu patamar. Na sua candura, Camila era vista como superior, como alvo para Tânia.

O CÂNCER DE TÂNIA

Em 2007, depois de alguns episódios de dores e de mal-estar, Tânia decidiu consultar-se com um médico. Adiou enquanto pôde a visita, afinal, nada de ruim acontecia com a família Pacheco. Dada a insistência dos sintomas, seguiu, contra a sua vontade. A primeira reação do médico já denotou preocupação. Foram dias de angústia pelo diagnóstico, que veio como uma bomba para ela: Tânia estava com câncer de mama.

Para a família, no entanto, câncer não passava de uma mensagem do destino, algo para recolocar a vida em perspectiva. Católicos fervorosos que são, ostentam as maiores hipocrisias que os clichês dos religiosos de fachada podem ter. Da boca para fora, são moral e bons costumes; da porta para dentro, são julgamentos e preconceitos.

Camila indicou seu oncologista para ser fortemente rechaçada por Tânia. Se fosse para ser curada, haveria de ser nos temos dela.

Assim foi que ninguém ligou tanto assim para o câncer de Tânia. E logo houve motivo para reverberar esta postura: após algumas poucas sessões de quimioterapia e uma mastectomia, Tânia estava com o câncer em remissão. Cinco anos após o tratamento, o oncologista de Tânia a declarou curada. Câncer era, afinal, apenas um susto. Para a família, era a esperança de amansar a alma dura de Tânia, uma lição a ser assimilada.

Ter enxotado o câncer a vassouradas, no entanto, não gerou grandes alterações no comportamento de Tânia. Ela viveu vida normalmente, tal qual antes fazia. E como brinde, o fato de ter sobrepassado seu susto agindo de maneira oposta à de Camila. Viu-se forte na aspereza. Tornou-se, finalmente, igual pela história similar de sobrevivência. De certo modo, ela e Camila competiam, agora, em pé de igualdade, embora Camila não fizesse eco.

A VIAGEM AO RIO

Era feriado de primeiro de maio de 2013 quando boa parte da família decidiu viajar junta. Apesar de cair numa quarta-feira, todos poderiam enforcar o resto da semana e aproveitar a Cidade Maravilhosa. Morando quase todos a cerca de 200 quilômetros da capital fluminense, acertaram quem dirigiria, quem iria de ônibus, e saíram em caravana ao Rio de Janeiro!

A excitação pela viagem deu lugar à preocupação assim que chegaram a Copacabana. Tânia sentiu-se mal quase instantaneamente. Tossia quase o tempo inteiro, respirava ofegante. Ainda assim, decidiram por ficar mais alguns dias. Ela, no entanto, via-se diariamente mais fraca. Quando perceberam que não havia mais jeito que fosse, que o mal-estar não era apenas uma virose que ia passar com remédio para gripe e repouso, subiram a serra no sábado, a tempo de chegar para o almoço com a família.

Na casa da avó, quem não tinha ao Rio, lá estava. Todos ficaram surpresos com a volta um dia antes do planejado. Contaram dos sintomas, do que fizeram, do que não puderam fazer. O atento marido de uma das sobrinhas de Tânia, médico oncologista, preocupado com a situação da tia e conhecedor do histórico, interrompe a falação sobre o infortúnio causado por Tânia. Depois de poucos minutos de conversa, leva-a para um hospital na própria cidade interiorana. Ainda mais preocupado com o que pôde verificar no hospital, sugeriu que Tânia fosse levada imediatamente para um hospital em São Paulo.

Tânia passou, então, de infortúnio pela viagem atrapalhada para alvo de angústia de toda a família. No inconsciente de todos, e no consciente ativo do sobrinho oncologista, estava o fantasma do câncer que talvez não tivesse sido curado. “Gente, mas o médico falou que ela está curada. Não há de ser nada.” Alguém falou, levando conforto aos que ficaram. Neste momento, Tânia já estava no carro de Juliana rumo a São Paulo.

CÂNCER 2.0

Outra vez o hospital, outra vez uma bateria de exames. O histórico de Tânia, no entanto, indicava a causa mais provável. Dados os sintomas, tosse e dificuldades de respirar, o diagnóstico foi facilitado por saber onde procurar. E as palavras proferias foram uma flecha no duro coração de Tânia.

“Tânia, você está com câncer no pulmão.”

A dúvida e a indignação tomaram conta de Tânia. “Ora, não estava curada?”

“Aparentemente, sim, mas precisamos de uma biópsia. Este câncer pode ser um totalmente novo, o que é mais provável, ou uma metástase do câncer de mama. Saberemos com certeza depois da biópsia.”

“Quanto tempo, doutor?”

“Por volta de 21 dias.”

O médico tentou confortá-la. Era mais provável um novo câncer, afinal, esteve considerada livre do câncer poucos meses antes.

Em sua mente brilhante, Tânia, no entanto, não enxergava qualquer conforto. Como poderia ela se reconfortar sabendo que foi brindada pelo universo não uma, mas DUAS vezes com uma doença altamente mortífera? Que tipo de conforto é este que diz que há algo fundamentalmente errado com seu corpo, propício receptáculo de câncer? Tânia não externou, mas pensou que seria melhor a metástase. Não que fosse melhor para ela, o que certamente não seria, do ponto de vista clínico. Queria que assim fosse pois a redimiria de qualquer culpa. Caberia ao oncologista, enfim, o erro e o remorso por ter falhado. Seria ela vítima de um erro médico.

O novo diagnóstico a abateu profundamente. Seu abatimento não era compreendido pela família, que fingia que nada de mais passava, sem acolhimento ou empatia. Esperavam uma nova Camila, alguém alegre e falastrona, que diminuísse a dor daquelas pessoas de não saber lidar. Quanto egoísmo há de haver naqueles que esperam que o paciente seja aquele a ajudá-los no enfrentamento de uma doença tão vil?

Tânia se mudou para o interior, ficando sob os cuidados dos pais. Nas três semanas que antecederam o resultado da biópsia, ela foi medicada como se o câncer fosse inteiramente novo. Em dia de quimioterapia, o pai a colocava no carro e dirigia as quase três horas da casa deles ao hospital. Fizera o mesmo para Camila, e assim se sentia na obrigação de retribuir.

Após os vinte e um dias de angústia, o diagnóstico veio, lancinante: o câncer do pulmão era, afinal, metástase do câncer de mama que tinha passado despercebido. O inconformismo tomou conta de Tânia. Procurou ser o mais objetiva possível dentro do cenário. Buscando racionalidade, focou no elemento prático do tratamento e desatinou para prognósticos. As sessões de quimio e radioterapia continuariam.

Mudou-se em definitivo para interior de São Paulo.

ESTÁGIOS DO LUTO

A família ficou no escuro com relação ao que efetivamente se passava com Tânia, que escondia os detalhes de procedimentos. Sobre prognóstico não falava, e neste quesito não mentia nem omitia, porque nem com o médico debateu o assunto. Fugia do tema com medo da resposta. A fatalidade consumada a derrubaria antes da hora. Sentia-se fraca, em físico e em espírito.

Analisava como sua irmã tinha conseguido fingir que nada acontecia, como alcançou viver como se um câncer fosse uma louça sem lavar na pia da cozinha. Enquanto sua irmã fingia para viver, Tânia fingia com medo da morte. Os motivos do fingimento refletiam no comportamento de todos os dias: Camila era alegre e espontânea; Tânia era continuamente mais fraca e triste, relegando-se à escuridão do não-saber e do não-viver. Camila não teve qualquer efeito colateral, o que era alvo de estudos pelas juntas médicas pela qual passou; Tânia sofreu no tratamento.

Em pouco tempo, Tânia vivenciou quatro dos cinco estágios do luto.

A negação inicial por achar que a tosse e a respiração ofegante não eram nada.

A raiva pelo erro médico que potencialmente a condenava.

A negociação, focando nos trâmites funcionais e práticos para o tratamento.

Era, por fim, a imagem da depressão.

O SONHO

Juliana seguiu com a família para o interior para passar o feriado de Corpus Christi, como sempre fazia em qualquer data comemorativa. O carro saiu de São Paulo, onde morava, rompendo a Dutra com parcimônia. A família de Juliana ia junto, marido, filha e cachorro. Na convivência daqueles quatro dias de feriado prolongado, esteve com a tia e acompanhou seu quadro.

Em uma dessas noites, Juliana teve um sonho que a incomodou e a perseguiu. No sonho, ela descia uma escada fechada e escura, e enquanto descia, ela encontrava todos os médicos que Juliana conhecia. Perguntava, em súplica, onde estava o médico oncologista da tia. Todos eles respondiam calmamente para que ela continuasse descendo a escada, que logo iria encontrá-lo.

Depois de muito descer, no escuro e com medo, encontrou, afinal, o médico de Tânia. Ele era diretamente iluminado por uma luz escassa, que servia apenas para mostrar o seu rosto.

“Doutor, preciso saber o que minha tia tem, a família precisa. Ninguém sabe de nada!”

“Fique tranquila, ela está medicada.”

Discutiram, pois ele se recusava a dizer exatamente o que estava acontecendo. Ele, por fim, pegou na mão da Juliana com firmeza e candura.

“Fique sossegada, a gente vai fazer o que pode, e ela vai morrer tranquila.”

A fala do médico acordou Juliana, que não mais pôde dormir. Impressionada e assustada com o que vira e ouvira, acordou sua irmã em plena alta madrugada. Contou-a do sonho. Era vívido, era claro, era nítido. Era quase… Real! De primeira, sua irmã refutou, “deixe de besteira e vá dormir.” Pouco tempo depois, no entanto, ela voltou para o quarto da Juliana. Havia pensado melhor e criado o argumento definitivo para que nada daquilo fizesse sentido:

“Essa família tem um monte de fêmea-alfa. Você é só a sobrinha. Não é a pessoa ideal para falar com o médico, nunca vai.

A INTERNAÇÃO

O tratamento de Tânia continuou, mas se efeito fazia, estava mascarado por uma aparência cada vez mais fraca. Seu pai continuava a levá-la do interior para a capital em cada dia de sessão química. Os efeitos colaterais eram muitos. Perdeu cabelo, sofria com náuseas constantes e seu corpo aparentava desistência. Respirava com muita dificuldade, cada vez mais ofegante.

Todo fim de semana, religiosamente, inventavam mais um motivo para reunir toda a família. Apesar da situação precária de Tânia, reuniam-se sem se preocupar com barulho ou zelo. O contraste era estarrecedor. De um lado, Tânia, sem conseguir levantar ou falar; de outro, a família barulhenta que seguia como se nada de mais estivesse acontecendo.

Foi numa sexta-feira, dia onze de outubro, que enquanto todos conversavam disputando para ver quem falava mais alto, o pai de Tânia voltou do trabalho. Apesar da idade avançada, ele seguia ativo, com muita disposição. Entrou em casa e deu-se com Tânia deitada no sofá da sala, que era sua cama, mal respirando. Pálida, com lábios roxos, não respondia aos estímulos e aos chamados do pai. Encontrou com a família na cozinha, e sentenciou:

“Gente, a Tânia morreu lá na sala.”

Atônitos, ninguém fez nada. Ele, então, ligou para um médico na cidade que ordenou que ela fosse imediatamente para São Paulo. O pai a trouxe junto com a mãe de Juliana, que faria as vezes de acompanhante da irmã. A proximidade do apartamento de Juliana ajudava neste arranjo. Acompanharia a irmã nos horários permitidos e dormiria na casa da filha.

Da emergência do hospital, Tânia foi internada imediatamente. A primeira ação foi drenar o pulmão. Tânia, ao ser encontrada pelo pai, morria afogada. O processo de drenagem passou a ser quase diário, sem melhora do quadro. Sempre que podia, Tânia questionava a equipe médica quando voltaria para casa. Respondiam um genérico “daqui a pouco você vai embora.” Mas o daqui a pouco parecia uma eternidade, demorava demais, nunca chegava. Em todos os momentos, a mãe de Juliana esteve ao seu lado. Ao mesmo tempo, Juliana passou a revezar-se na assistência à tia. Ela e sua mãe eram as cuidadoras da tia Tânia.

O maior medo da mãe de Juliana era o de que sua irmã morresse enquanto ela estivesse lá. Temia não saber como lidar com a emergência e com a culpa de pensar que talvez fosse dela a causa. Duas semanas após a internação, o medo fez-se realidade. Tânia teve uma crise grave. A mãe, desesperada, ligou para Juliana, que foi ter com ela assim que o telefone tocou.

MAIS UM SONHO

Na chegada ao hospital, Juliana encontrou Nilson, amigo de longa data de Tânia, mas que há muito tempo não a via. Ele a contou com sonhou com a amiga e o sonho o fizera ligar para a família para saber notícias. A distância e o tempo desde a última vez que estiveram juntos eram tamanhos que sequer conhecia o número do telefone da amiga. Quando contaram que ela estava internada na UTI do Hospital 9 de Julho, Nilson correu para vê-la.

Contou ele a Juliana do sonho que teve:

“Tânia estava na minha casa. Era tarde, ela disse que ia embora. Ofereci para que ela ficasse. Ela aceitou. Eu cuidava dela antes de dormirmos. Ela estava fraca demais, precisava de ajuda para tudo.”

Juliana viu-se no sonho de Nilson. Os cuidados a que ele se referia, Juliana fazia na vida real.

A emergência foi solucionada, e todos puderam acalmar-se levemente mais aliviados.

DA BOCA PARA FORA

A vida seguia e havia pouco o que outros poderiam fazer. A esta altura, a mãe de Juliana já estava de volta ao interior, o que, por um tempo, fez com que ela fosse a única acompanhante da tia na UTI. O resto da família se mantinha a um braço de distância. Ninguém oferecia ajuda, prestava uma palavra de conforto.

Uma prima de Juliana liga para ela preocupada. Há muito tempo, ainda enquanto a tia estava com diagnóstico de cura, portanto, muito antes de ver-se doente, ela tinha comprado um cruzeiro, parcelado em dezoito vezes. Por um lado, sentia-se mal de viajar pela situação da tia; por outro, eram as férias da família em jogo e desperdício de dinheiro. A ligação foi para saber se Juliana precisava de alguma ajuda, que ela se voluntariava para tanto, mas que não tinha como ir para São Paulo. A resposta de Juliana foi pragmática:

“Ela está na UTI, os horários de visitação são restritos e limitados. Não faz diferença, não há nada nem que eu possa fazer a não ser acompanhar. Vai viajar tranquila.”

A prima seguiu o conselho de Juliana e embarcou. Postou, de cara, uma foto no Facebook. Foi então que outra prima, viu a foto e comentou:

“Olha, não sei se vc sabe, Tânia está na UTI, e de lá já sabe, né?”

O comentário da prima provocou a ira de absolutamente todos na família. Uns, de um lado, defendendo a viagem, de que nada poderia ser feito, e, no limite, era um comentário maldoso, feito apenas para imputar culpa e mal-estar; outros, defendendo que ela jamais poderia ter ido, embora nenhum deles sequer ligasse prestando auxílio.

A família permanece quebrada até hoje.

No mesmo dia, Tânia teve uma melhora significativa e saiu da UTI.

PERTO DO FIM

Foram mais quinze dias de quarto. A saída da UTI exigia um cronograma mais complexo de acompanhamento, que passava a ser integral, não mais curto e restrito. Para auxiliar na estafante nova rotina de acompanhante que se fez necessária – sem contar os compromissos profissionais de Juliana – uma cunhada, esposa de um irmão de Tânia, passou a também frequentar o hospital.

Durante quinze dias Tânia permaneceu no quarto, cercada de cuidados próximos, mas sem melhorar sua saúde.

Como fazia toda noite, Juliana voltou para casa e colocou a filha para dormir. Em breve, tocou o telefone. No identificador de chamadas, a cunhada de Tânia. Juliana logo pensou que notícia boa não haveria de ser. Na linha, a cunhada pedia para ela voltar, “estou preocupada.”

Quando chegou ao quarto do hospital, Juliana encontrou Tânia roxa na cama, sem conseguir respirar. A cunhada, que era do interior, não conseguia lidar com a dimensão da cidade e do hospital, e ficou paralisada com a situação. Juliana correndo chamou a enfermeira, que disse que nada podia fazer.

Vendo Juliana nervosa com a resposta, a enfermeira ligou para o médico para que pudessem conversar. O “não posso fazer nada” martelava a cabeça de Juliana. Era mais grave do que parecia.

O médico atendeu o telefone e tentou, no melhor de seu controle, acalmar Juliana. Confirmou ele que Tânia estava passando por uma severa crise respiratória. Como paliativo, sugeriu um analgésico tão forte que o corpo não perceberia que estava com falta de ar. Para tanto, ele precisava de autorização da família, e a decisão imediata.

“Tem outra alternativa, doutor?”

“Infelizmente, não.”

“Ora, então não tem escolha. Se é a única coisa a ser feita, pode fazer.”

E assim se fez. Instantaneamente Tânia melhorou.

Depois de ver a tia respirando com mais tranquilidade, Juliana tornou a ligar para o médico. Precisava saber mais do que tinha acontecido. Ele só então explicou que o quadro era uma ortotanásia. Na cabeça de leigo de Juliana, fez-se entender que ela estava morrendo, que Tânia não mais acordaria. E comentou, no mesmo tom do sonho, que ela se acalmasse, que eles fizeram o que podiam e que a tia morreria tranquila.

A CONTAGEM DOS ÚLTIMOS SUSPIROS

Juliana desliga o telefone em choque. Precisa de um tempo para processar o que tinha acontecido. Tinha em mãos um ultimato. Não há tempo, no entanto, para assimilação. Rapidamente, Juliana comunica a família. O pai da Juliana vem na hora para São Paulo com a esposa e uma das tias. Ligou também para outros membros da família e para duas amigas próximas, as únicas, as renitentes, que foram para o hospital assim que souberam. Uma delas levou um rádio para tocar um CD de que Tânia gostava.

Somente então Juliana falou para a cunhada de Tânia sobre o prognóstico. Ela se desesperou e ligou para o marido. Era, realmente, mais do que ela poderia aguentar. Procurou um canto e iniciou uma oração ininterrupta, em sussurro.

Às 22:30h foi quando o médico desenganou Tânia.

Juliana, envolta num turbilhão de ter sido a acompanhante por meses, por ter tomado a decisão definitiva, por estar ali vendo a morte na sua frente, morte que na família só vem de velhice, sai para tomar um ar. Quando retorna, vê a tia que veio com seus pais do interior contando.

“Cinco, seis, sete”

“Tia, o que você está fazendo?”

“Estou contando quanto tempo demora entre uma inspiração e outra.”

Juliana olha enternecida para a tia, que continuou sua contagem inócua:

“Sessenta e um, sessenta e dois, sessenta e três…”

Juliana chama a enfermeira. Eram seis horas da manhã, o dia raiava na capital paulista. A enfermeira, ao ver do que se tratava, diz apenas que sente muito. A morte chegando, a enfermeira sentindo, o dia raiando e a tia contando a esperança que ainda teimava em queimar:

“Noventa e um, noventa e dois, noventa e três…”

POST MORTEM

Juliana e o pai foram ao cartório para dar entrada no atestado de óbito. Dali seguiram para a funerária, e mais outros trâmites que duraram um dia inteiro. Por ser solteira e sem filhos, o espólio do cerimonial de Tânia caiu nos colos da família, e cada um querendo fazer do seu jeito. Em prantos, família e agregados passaram a noite velando sua morte.

Juliana, cansada pelas 48 horas sem dormir, tendo já visto o fim consolidado, voltou para casa. Sentiu-se leve, com a cabeça tranquila pelo dever cumprido. Dormiu o máximo que pôde.

Despertou às seis horas da manhã e seguiu de volta para o velório. Acompanhou de longe o cortejo para o enterro que saiu por volta das dez. Na única hora em que se aproximou do grupo em luto, ouviu uma prima qualquer perguntar para uma tia qualquer se podia ficar com a mesa de jantar de Tânia, que jazia ali sem nem ainda servir de alimento para a terra que a haveria de comer.

DA SIGNIFICAÇÃO

Quando Juliana me procurou para contar sua história, ainda era atormentada por ela. O que mais a incomodava, era o sonho. Aquele sonho do Corpus Christi, refutado veementemente pela irmã. O sonho que a trouxe a indicação da morte tranquila e que ela estaria à frente da decisão. Procurou explicações, significações. Haveria, ela, de ter previsto o futuro? Ainda mais tão improvável? Por quê?

Apelou à crença e à ciência.

Durante um curso que fazia buscando significado espiritual, Juliana perguntou para uma guia se já tinha ouvido algo similar. A guia comentou que Juliana tinha recebido um endosso do plano espiritual para que ela se acalmasse e pudesse tomar uma decisão serena.

Procurou, também, um amigo psicólogo. Ele explicou que se tratava de inconsciente coletivo. De uma certa forma, a família autorizou que ela tomasse o leme da situação. Responsabilidade delegada por todas as fêmeas-alfa-mas-nem-tanto. Ou talvez seu cérebro tivesse calculado todas as variáveis existentes e dado uma resposta que era lógica no subconsciente, que emergiu num sonho porque era o único canal possível para assimilação do consciente.

DO FIM, ENFIM

Dessa história fui meramente instrumento de transcrição. Ainda assim, crio em mim a expectativa de que esta versão ganhe asas e voe, que não more mais somente dentro de Juliana. Que a narrativa acalme seu coração aperreado. Que tenha se encerrado, por fim, o ciclo inacabado que ainda perdurava na sua tormenta.

Hoje, no dia 2 de novembro, dia de Finados, dentro do meu alcance, o sentimento é que a Tia Tânia seguiu, enfim, seu caminho. Deixou de ser peso para virar saudade.

Na fragilidade da vida que vivemos, estamos todos por um fio.

***

 

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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