Carnaval Contos

Na Suíça

Escrito por Gabriel Galo

Rodrigo não conseguia enxergar pontos negativos quando foi convidado a ser expatriado para trabalhar na Suíça, com direito a promoção. Era o esperado reconhecimento de sua qualidade profissional dedicado. Não reclamava por causa de nada, era o primeiro a chegar, último a sair, assumia responsabilidades de maneira proativa, e ficou falado na empresa como resolvedor de problemas.

– Entrega pro Rodrigo que ele resolve.

Ele Rodrigo é profundo admirador do rock n’ roll. Na sala de seu apartamento em São Paulo exibe orgulhoso capas de vinil de relíquias importantes da história da música. O LP colorido do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles, comprado na Austrália; o original da primeira edição do Physical Graffiti, do Led Zeppelin; e a maior relíquia de todas, o disco com a capa autografada pelo Pink Floyd do The Dark Side of the Moon, herdada de seu pai, que os encontrou numa viagem a Londres na década de 70 e teve a perspicácia de entender que poderia se tratar de algo histórico.

Toda quarta-feira encontra com os amigos do investment banking para uma rodada de pôquer, uísque e charutos. Cada semana na casa de um, era infalível. Enquanto alguns têm o seu futebol sagrado, era no pôquer que ele se refugiava.

E odiava o Carnaval.

É importante que coloquemos em perspectiva que o Rodrigo é nascido e criado em São Paulo. É muito fácil odiar o carnaval tendo nascido por estas bandas.

Todo ano era a mesma coisa:

– O que vocês vão fazer no Carnaval?

E o Rodrigo ouvia os planos de quem se revezava entre Rio, Salvador, Recife, Olinda, cidades históricas de Minas Gerais, e mais tantos outros… Sempre tinha algum que ficaria em São Paulo por causa de dinheiro e sempre tinha algum que iria para algum lugar isolado, fugindo da folia.

Ele ria, embora nunca tenha compreendido aquilo tudo. Não via sentido.

Na Suíça afastou-se inteiramente das tropicalidades brasilianas. Não sentia falta, comentava com certo alívio da mudança.

Até que um casal local veio perguntar sobre o carnaval para o Rodrigo. Como não podia dar muitas dicas, eles seguiram rumo ao Galeão. A viagem, que era para ser de duas semanas, durou dois meses.

Na volta da viagem, ao vê-lo na empresa, os dois vieram abraçá-lo. E contaram tudo.

Dos blocos de rua no Rio e dos desfiles das escolas de samba; da loucura que fizeram quando conheceram uns nordestinos e foram parar no bloco de Ivete em Salvador; da loucura ainda anterior, quando, no avião, conheceram um outro casal de Recife, que os convenceu a começar pela cidade deles e por Olinda, oferecendo, inclusive, abrigo. Da sensação estranha que sentiram depois da festa, e como decidiram dar mais uma chance ao Brasil, e resolveram ficar por ainda mais um mês, pingando de lugar em lugar, saindo de carro do Rio e chegando até a Fortaleza, parando nas praias que mais gostassem.

– Foi espetacular!

Os olhos deles brilhavam de alegria.

– Ano que vem vamos fazer Carnaval em Zurique!

Rodrigo riu bastante das histórias.

Um ano se passou.

Não houve Carnaval em Zurique. Não haveria de ter, empolgação não é muito a praia dos suíços. E empolgação do casal se esvaiu com o frio do inverno europeu.

Parece que espontaneidade é atributo exclusivo de países de clima quente.

Ficou decepcionado, isto não conseguia esconder. Mas jurou para si mesmo não contar para ninguém que se fantasiou de Carmen Miranda, copo de caipirinha na mão e saiu cantando marchinhas escondido na privacidade de seu apartamento.

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e mais tantos outros lugares e personagens fascinantes.

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