Carnaval Crônicas

Neymar é do dibre, mas não é do zignau

Neymar, Anitta, zignau
Escrito por Gabriel Galo

Chore, amigo, se estribuche, amiga. Unamo-nos todos no pranto. Nas regulamentares 12 horas de relógio da quarta-feira de cinzas, o Carnaval se encerrou. Pôs-se um ‘já basta’ crivélico a esta que é a maior festa do povo. Podemos, enfim, olhar para trás e ir catando os cacos do pudor, da linha, da dignidade e do juízo perdidos. Aceitemos o bordão que nem salva, nem liberta, mas melhora a ressaca moral com sorriso de canto de boca: se eu não lembro, eu não fiz.

Que a folia momesca é o auge da máxima do dedo no c* e gritaria, todos sabem. Só que os problemas que ele gera vêm de antes. Começa lá quando tudo é pré-Carnaval e expectativa. Estou falando do zignau.

Zignau. Termo absolutamente baiano, que significa o perdido, o descubra, o MIM ACHER. E que é elevado à infinitésima potência durante o período da fantasia e do dedinho pra cima.

Não se faça de desentendido. Você conhece, você já tentou, você já fez. É quando o casal se aparta a poucos dias da folia se valendo das mais esfarrapadas desculpas, dos querequexés mais enfeitados que mortalha dos Filhos de Gandhy no Brasil da Nova Era.

Filhos de Gandhy, versão 2019. É o quê?

Assim, certos de que enganam, mas ninguém comendo reggae de seu ninguém, cada um segue pro seu canto para mergulhar de cabeça da piscina da esbórnia e fritar a pele no óleo do desbaratino, torcendo pra não se cruzarem pelaí. Um acordo tácito, em que ambas as partes saem ganhando – se não fizer direito, ganha também um chifre ou uma DST.

Celebre-se!

Só que o mundo das celebridades, minha gente, é pequeno e cabe, no máximo, num camarote no Barra/Ondina ou na Sapucaí, em dias separados, porque quando tá todo mundo num, tem ninguém no outro.

O camarote é a casa do BBB das celebridades. Se distribuíssem edredom, rapaz, aí é que o couro ia comer em 759 idiomas.

Lá dentro é um festival de cumprimentos contidos e pequenas demonstrações etílicas de “já fui ali.” Aquele rebu gostoso em que comedimento e paumolecência não são bem-vindos, como toda boa farra que se preze exige.

Portanto, Noronhe-se, Sapucaí-se, CAMAROTE-SE!

Neymar, cadê o zignau?

É nesta onda que quebra no mundo pequeno do camarote que Neymar, Anitta e Bruna Marquezine protagonizaram uma quizumba dos seiscentos, que não quer dizer nada e nem muda a vida de ninguém além da notoriedade do óbvio: Neymar entende de dibre, mas não entende do zignau.

Reza a lenda que o menino Ney largou as muletas – milagre! – e se engraçou pros lados da trilíngue Anira, que, dizem, se rendeu aos encantos do craque. Tudo na frente de Bruna, que chorava num canto, descoisada. Registro devidamente captado nas ondas da internet pelo Instragram, esta rede onde o dito é pelo não dito, onde uma imagem vale mais do que mil palavras, onde o glamour toma champagne em garrafa que pisca.

Aí, a baianidade aflora, e eu pergunto: COÉ, MENINO NEY? Que juvenil é esse, pae? Porque, olhe, pra pegar uma não precisa desfazer da outra não, vu? Cadê o zignau, criatura?

De um lado, sem culpa nem desculpa, Anitta fez a egípcia, mandou um “te conheço?” pra Bruna, “não lhe devo nada”, incorporou a Valesca, largou um beijo no ombro e seguiu de bloco em bloco, brincando de Netinho no Carnaval de antanho, “foi sem querer que eu beijei a sua boca.”

Já o Neymar, o menino-amarelo que não manja dos paranauê do zignau, tascou de dizer que não era bem assim, que lé, que cré e ninguém botando fé. Indagado pelo roxo da boca, que curiosamente combinava com o roxo do batom de Anitta, raciocinou-se entre o frio congelante do verão carioca e a gangrena labial. Vendo-se sem saída, apelou para sua assinatura. Como se sofresse uma falta ali, rolou no gramado do camarote urrando de dor, sendo carregado pelos seguranças para longe. Em breve, sai um texto publicitário explicando.

E Bruna? Bem, Bruna curtiu a fota, descurtiu a fota, deixou de seguir a diva pop brasileira e, no fim, cancelou sua conta do Instagram de uma vez. Talvez, imbuída do espírito da reparação vingativa, tenha até mandado um “oi, sumido” praquele ex de algum tempo… Porque Bruna é gente como a gente.

Gente como a gente?

Quer dizer, gente como a gente, mais ou menos.

Porque a gente como a gente não anda em camarote. A gente como a gente se espreme é na pipoca, tomando safanão das otoridade. A gente como a gente sai nos blocos pra tomar cerveja quente e se entrega à balbúrdia sem se preocupar com flashes de curiosos interessados no dinheiro fácil. A gente como a gente tem anonimato pra geral, embora nunca pros vizinhos.

Mas, principalmente, a gente como a gente é mestre na arte do zignau. Dá rasteira em cobra e nó em pingo d’água. E vai dizer que não? Me erre!

Segura a Bahia, meu povo, que o ano parece que finalmente começou. Ou não, porque se depender do meu estado físico, é só pra de hoje a oito. E olhe lá, não aperte minha mente, senão eu meto atestado.

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

2 Comentários

  • Agora, Galo, me diga mesmo, onde é que um menino criado à base de toddynho vai se fazer na arte do perdido? A grade curricular do zignau requer bater mais de mil cancela na estrada do desengano.

    Aí tá é acostumado a choramingar e sapatear, feito pivete catarrento em supermercado, pra painho tomar a frente e lhe comprar o brinquedo do momento.

    • VAI É NUNCA! A grade curricular do zignau (hahahahahaha, adorei!) tem vestibular: não aceita menino amarelo como pré-requisito!
      E o negócio complica também porque o cara choraminga e ganha Ferrari, Lamborghini, um jatinho… E a gente como a gente ganha, no máximo, o troco em Big-Big!

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