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No inferno só se come comida saudável

Bela Gil fundou sua própria religião, onde comidas saudáveis e dieta são a nova mensagem de luz. Mas você pode substituir isso por fome.
Escrito por Gabriel Galo

Minha mulher começou um regime aqui em casa. De fazer inveja aos maiores ditadores do mundo. Minha vontade por perder os quilinhos extras fez com que eu aceitasse participar deste experimento. O que me leva à certeza de que somos nossos maiores sabotadores, autoflagelamento. Pois eis que a vida aqui em casa virou um inferno.

Passei a ser vigiado pelos olhos duros da inquisição calórica. Transgressão máxima passou a ser comer um chocolate. Daqui a pouco vai ser permitido arrumar outras mulheres numa boa, mas que eu não toque num sorvete antes de dormir.

Porque meu amigo, minha amiga, você que comeu um bolo de chocolate no café-da-manhã, você que comeu aquele ovo mexido com bacon, você que inovou e mandou ver uma panqueca com alguma cobertura bombástica, tenha certeza: eu os invejo.

O poder da tirania passou a ser exercido de maneira minuciosa. De uma hora para outra a despensa foi tomada por coisinhas saudaveizinhas e muito fofuxicas. Eu tenho vergonha de entrar na minha despensa. Depois da centésima ida, percebi que um leite condensado jamais se materializaria, que um chocolate não teria brotado. E o pior: tudo se transformou em farinha.

Farinha de aveia. Farinha de banana verde. Farinha integral. Farinha de coco. Farinha de tudo quanto é tipo. O povo miserável do Nordeste que vive de farinha, na verdade, está numa dieta fitness. Questão de marketing, coisa que um presidentop resolveria num estalar de dedos. Só que a verdade, essa menina que arranca cabeça de boneca e bota peça de Lego no chão para você pisar descalço, é crua, nua e pua: o nome disso é fome. Fome é o que eu sinto. Fome é meu estado natural.

Dieta orgânica e saudável virou o dogma da uma nova religião. Pecado, seu nome é carboidrato. Criaram graus de separação de carboidratos, existe até o carboidrato complexo. Ou ouço “carboidrato complexo” e penso que um macarrão vai resolver equações de física quântica enquanto cita trechos da “Crítica da razão prática” Kant, sei lá. Nesta seara de pecados e dogmas, saudamos a descida à Terra, exemplificada pelo branco piso frio de nossa cozinha, a deusa mestra: Bela Gil.

Quanto mais eu ouço falar de Bela Gil, mais eu amo a Palmirinha.

Religião que possui sua bíblia, seu livro sagrado, como não: o livro de receitas de Bela Gil. Contou-me um amigo certa feita, que sua esposa fez, feliz e contente, ancorada no agrado, uma sopa fria de beterraba. Segundo ele, foi a pior coisa que já comeu na vida. Esta experiência deve estar ali, pau a pau, com o churrasco de melancia. Até tem umas coisas boas nos livros de receita da Bela Gil, mas se prepare para uma expedição árdua e trabalhosa. Garimpeiro é bicho que sofre.

No que a bela filha de Gilberto Gil expandiu os negócios. De apresentadora de TV e escritora de livro de receitas, ela também criou sua linha de produtos miguxos com selo de aprovação na USP e na Vila Madalena. Tudo lindo, com letrinhas bonitinhas na embalagem, que são coloridinhas e de tamanho petit. Porque, caso você não tenha dado conta, além de comer mal, se come pouco.

Foi na sanha da farinha que a discípula de Bela Gil com quem divido a vida comprou uma tal farinha pronta para bolo. Sabor cacau, que logo traduzi para chocolate, imaginando se tratar de um eufemismo criado num coworking-hipster-brainstorming para aumentar o preço e diminuir o sabor. No mundo fitness-dieta-whey existe uma balança que mede a relação sabor e preço: quanto pior for o sabor, mais caro vai ser o negócio.

Pois na semana passada ela fez o bolo.

(pausa para respiração para eu não chorar.)

Não é que o bolo seja ruim; veja bem, tem gosto para tudo. Acontece que a farinha não dissolve, então a cada mastigada você está comendo areia. Faz-se aquela massa seca e sente grãos de areia lhe tomar a boca. Só tem, na vida, uma coisa que eu aceito comer com areia: porção de lambreta na praia em Salvador. E olhe que bom baiano praticante, farinha se come até com macarrão.

A não dissolução farinácea deve ser premissa destes produtos da mesma laia. Deve estar no check list do controle de qualidade.

“Ah, mas eu acho muito delicinha essas coisas.”

Minha comadre, meu compadre, se você vier com essa conversa mole, com esse papo furado, já largo do coldre uns 600 palavrões para soltar, tudo sinônimo de mentiroso. Quem larga estas falácias está no fim atrair todo mundo para o lado negro da força, para dividir as mazelas de uma vida sofrida. Triste, talvez. Porque gostoso não é. Ah, mas não é mesmo.

Sabe o que é gostoso?

Pudim de leite condensado. Aquela barra de chocolate branco e meio amargo ao mesmo tempo. Creme brulée. Goiabada com queijo. Doce de leite com qualquer coisa. Pastel de nata. Doces com gemas de ovos em geral. Rabanada. Isso apenas no maravilhoso mundo dos doces. Porque ainda tem aquela macarronada escorrendo molho gordo. Churrasco com carne mal passada, traçando a picanha com gordura e tudo. Feijoada com torresmo. Pastel. Bife a cavalo. Acarajé. Carne-de-sol com pirão de leite.

Sonhei esta noite que eu nadava numa piscina de sorvete e que tinha destas fontes que derramava caldas de tudo quanto é tipo. Como eu era feliz!

Acordei chorando. E com fome.

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e mais tantos outros lugares e personagens fascinantes.

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