Crônicas Letras de meu pai

Quando a mentira se veste de lenda

Escrito por Gabriel Galo
(por Paulo Galo Toscano de Britto)

Foi num encontro de ex-alunos da Escola Técnica Federal da Bahia, no final do ano passado, que reencontrei um professor do curso de Geologia, anos sumidos das vistas um do outro.

“Ah, você mora no Santo Antônio, Galo? Que legal, minha família tem uma ligação histórica com aquele lugar, sabia? Meu bisavô foi quem destruiu, com um tiro de canhão, uma das torres daquela igreja. Ele era comandante da Marinha!”

Não entendi de onde vinha o orgulho dele diante do feito, mas também não dei muita bola, pressentindo que ouvia mais uma deslavada mentira promovida ao status de lenda após anos e anos de entusiasmadas narrativas.

Tão convicta quanto às que afirmam que a Igreja de Santo Antônio só tem uma única torre, onde está instalado o sino, por causa de um raio, que destruíra a outra torre, certa feita.

Junte-se a elas a “informação”, fruto de muita “pesquisa”, dada pelo dono de um boteco que fica no Largo, que assegura que a igreja foi erguida com apenas uma torre por que a Igreja Católica usava como critério de arrecadação para a Diocese exatamente o número de torres. Segundo ele, a tabela de preços era absurda para as casas de Deus com duas torres.

Pois foi que na semana passada conversava com um antigo morador do bairro sobre uma outra lenda baiana, a do Esporte Clube Bahia, e tomei a decisão de tirar a história da torre a limpo. Fui procurar o velho pároco do Santo Antônio, Monsenhor Gilberto Pithon, em sua casa.

Gilberto foi o padre daquele lugar de 1975 a 2000, quando aposentou-se após 50 anos de sacerdócio. Mora ali mesmo, no velho Largo, cercado de lembranças e livros. É autor de 10 deles e tem profundo conhecimento histórico da paróquia e do santo.

Riu das histórias que lhe contei e rapidamente despiu-as exibindo documentos e fotos publicados em uma de suas obras, em que consta uma imagem feita da igreja no final do século XIX, quando ela não tinha torre alguma.

É isso mesmo, a 4ª e definitiva igreja erguida no velho Largo de Santo Antônio Além do Carmo para o louvor do santo – que era o padroeiro das forças militares lusitanas – simplesmente nunca teve duas torres. Sua única torre foi incorporada ao imóvel no começo do século XX, para abrigar o sino que está lá até hoje. Apenas isso.

Despedi-me do velho padre rindo dos heróis do passado e dos “historiadores” do presente. E com uma certa compaixão pelo professor, tão necessitado de fazer-se representado, de alguma forma, em atos que marquem a história de um povo, de um lugar. Mesmo que isso seja apenas uma mentira sincera.

Mas quem poderia reprovar-lhe o gosto da crença em uma lenda? Vivemos tantas delas diuturnamente ao registrar o que a imprensa publica, o que os políticos prometem fazer, não é mesmo?

Pior: quantos de nós empenhamos tempo, energias, esperanças num amor que até as pedras sabiam que fora erguido com vigorosas lajes e colunas de sonho, prometendo uma vida feliz no futuro e entregando desassossego e frustração no presente?

Mentiras e seus estágios mais elaborados pelo tempo, as lendas, estão aí pra quem quiser contemplar e mesmo viver por conta delas.

Tá valendo também, só não pode é reclamar depois, dizendo que foi enganado, né?

Este texto foi escrito pelo meu pai, Paulo Galo. Link, aqui, pro original no finado há anos Blog do Galinho, publicado em 30 de junho de 2008.

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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