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(Quase) Toda fantasia é permitida

As Muquiranas, Salvador, carnaval, bloco fantasia
Escrito por Gabriel Galo

Afinal, o que é mesmo o Carnaval?

Na sucessão da história, muitas são as teorias de como começou. Alguns atribuem a Dionísio, deus da Mitologia Grega, transformado em Baco na versão Romana. Outros atribuem às saturninas romanas, celebrações ao Cronos romano. Já os que querem empurrar mais para trás, chegam a Ísis no Egito Antigo.

Apesar das inúmeras origens possíveis, eventualmente uma combinação de todas elas, uma característica é comum: a subversão. Estabeleceu-se a época de brincar com as convenções sociais estabelecidas. De colocar as coisas de pernas pro ar, de cabeça pra baixo. De inverter a lógica. O contexto histórico diz respeito ainda a mais três aspectos: a forte presença do vinho na desinibição (ah, Baco…), às fantasias e às máscaras, referências ao teatro grego ‘criado’ por Dionísio e a entrega aos prazeres da carne. E num lindo encontro entre analogia e literalidade, carne serve para a pele (a libido exacerbada, afinal, bebida para quê?) e para a entrada na quaresma, quando a carne literal estaria abolida das dietas.

Carnaval é, portanto, a redenção da carne, a extrema sensibilidade da libido, a troça do convencional. Posso ser, no Carnaval, o que não sou. Com um objetivo único: divertir-se. Eu nunca vi homem vestido de mulher arrumando confusão no Carnaval, mas marmanjo preocupado na macheza, aos montes.

No que muitos, estimulados pelo infame vídeo recente do Catraca Livre, resolveram dar vez e voz aos seus próprios preconceitos e intolerâncias. Sentem-se protegidos por estarem do lado ‘certo’ e desapercebem-se de suas próprias incoerências. Surgiu assim uma figura tão patética quanto infame: o patrulheiro do Carnaval.

O patrulheiro do Carnaval existe para encontrar pelo em ovo. Está condicionado para problematizar absolutamente tudo o que encontrar pela frente. Sem lógica, apenas porque sim. Homem vestido de mulher? Ofensa machitas às mulheres trans. Índio? E o genocídio que eles sofrem? Cigano? Muçulmano? Apropriação cultural e reducionismo estereotípico.

Deturpam conceitos, cometem erros infantis. Apropriação cultural diz respeito a um grupo assumir como propriedade um aspecto cultural de outro grupo. Não é um branco usar turbante, é branco dizer que turbante é de sua cultura, não da outra. Há muita diferença, desconhecida dos provocadores da infâmia. Argumentam que há reducionismo de uma cultura a uma vestimenta. Ora, não é uma fantasia, pombas? Além do mais, esperam o quê? Um livro de apresentação histórica de um povo – veja bem, apesar da fantasia, conheço tudo desta gente – com comentários do Chico Pinheiro? Ora, por favor! E já que a onda é botar do avesso, não seria um homem vestido de mulher tão somente uma subversão, uma inversão do que ele é? O que haveria de ser mais oposto ao homem do que a mulher?

O exagero desta gente encontra eco nos odiosos verdadeiramente preconceituosos. Saiu de mulher? Obviamente ou é bicha enrustida, ou homem que bate em mulher ou uma mistura dos dois. Safadinho? Putanheiro viciado em pornografia. Estes, sim, são aqueles que deveriam ser combatidos no Carnaval: a tal da gente de bem que prega a extinção da alegria. Para eles, a culpa incutida é o verdadeiro deus.

No fim, pode (quase) tudo. Porque os odiosos, os preocupados com a lacração, os patrulheiros, infelizmente, não deixarão de existir. Eles sonham com Carnavais do Crivella, com música amena, sem excessos, tudo controlado e monitorado. Imaginam, talvez, até carnavais sem Carnaval. Ou seja: são virtuosos da chatice. Afinal, não podemos dizer que os que não se fantasiam estariam presos por correntes e grilhões à realidade, de tal forma abduzidos que não são capazes de pintar um outro cenário? Para a patrulha do alheio, somos ou prisioneiros ou preconceituosos. Não tem pra onde correr: se correr o bicho pega; se ficar, o bicho come. A questão é que Carnaval não aceita vigília. Na cultura do meu-umbigo-é-o-mundo, é inconcebível para os infelizes que uma fantasia de carnaval tenha como objetivo maior a diversão.

Ademais, proponho uma outra pergunta: será que nos fantasiaríamos do que odiamos? Certamente não. Nos carnavais de por aí, prefiro os fantasiados. Quanto mais escrachado, melhor. Estão eles ali (homens, mulheres e combinações) honrando as mais antigas tradições do Carnaval: bebida, putaria e fantasia. Saíram para se divertir, e ponto final. Carnaval É fantasia.

Problematizar o Carnaval: tô fora. Guarde sua agenda, não se crie. E um beijo no ombro, pro recalque passar longe.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

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