Carnaval Contos

Remissão dos pecados

Escrito por Gabriel Galo

Marinalva era conhecida na região da Vasco da Gama, todas as Brotas existentes, Ogunjá, Vale da Muriçoca, rompendo a barreira do Rio Vermelho, seguindo de lado a lado, da Barra até a orla principal da cidade de Salvador, e também voltando, criando monta até em Nazaré. No trecho da ponta da cidade em que o nome de Marinalva está na boca de quase todo mundo.

– Lá vem Marinalva…

E os homens se reuniam, faziam suas apostas, decidiam no par ou ímpar, qualquer que fosse a regra para ver quem ficaria com a bendita naquele dia.

Ela era, digamos, facilmente convencida a deitar-se com quem quer que fosse. E deitava. Não era de exigir muito.

Não trabalhava. Vivia de shortinho curto, blusinha com umbigo de fora, chinelo de dedo e celular na mão, sem contar o cabelo preso criando um certo pompom em vez de rabo de cavalo. Mascava sempre um chiclete de maneira um tanto espalhafatosa. Quando passava e ouvia os gracejos dos marmanjos que emitiam seus cantos de acasalamento na esperança da sorte grande, sorria largado, já virando a cabeça, apontando com a ponta do dedo para aquele que lhe agradava, e sem nem trocar papo, sumiam no beco mais próximo.

Nessas, ganhava um trocado aqui e ali, “pra colocar crédito pro zap” e assim ia sobrevivendo.

Ninguém conhece a história de Marinalva, não sabe de seu passado. Nada. É uma incógnita. A única certeza que se há é que invadir suas entranhas sem proteção quase certamente vai garantir uma bolha que desagrada, uma verruga que salta aos olhos, uma coceira que incomoda.

Alguma coisa acontece, no entanto, quando chega o Carnaval.

Marinalva se arruma. O shortinho curto permanece, mas o chinelo dá lugar a um tênis sujo e maltratado, mas funcionando. O umbigo desaparece e dá lugar a uma blusinha um pouco mais folgada, com um pouco mais de detalhes, que ela coloca para dentro do short. Ajeita o cabelo com carinho, até maquiagem se arrisca a colocar, e segue para os circuitos de blocos, onde quer que eles estejam. Invade a pipoca com propriedade, no molejo de quem já está acostumado, fugindo de cotoveladas e safanão da polícia.

Ali, solta o corpo para que seja carregada pela horda, como uma rainha do Egito, entregue aos braços negros, suados e cansados dos seus súditos. A música invade seus ouvidos, e ela se transporta. Entra em transe. É o som, a batida, a multidão. A entrega.

Marinalva voa.

E durante toda a festa, nem um beijo na boca. Muitas são as tentativas. Mas na malemolência de quem corre da opressão da pipoca com facilidade, desvencilha-se sem grandes dificuldades.

– Marinalva, meu amor!

De vez em quando alguém a reconhece, já jogando charme achando que vai dar jogo. Ela apenas encara o pretendente com firmeza, sem trocar uma palavra, seus olhos gritando “se saia!”, e danado se pica à procura de seu novo amor.

Assim passam todos os dias.

Talvez acreditando que vai encontrar um grande amor no Carnaval baiano. Talvez seja a esperança de rever o grande amor que um dia a prometeu o mundo, mas a deixou às traças e desencantada no Vale da Muriçoca.

Ou talvez seja a busca desesperada pela remissão dos pecados, pela sua conduta que julga incorreta, e quando todos libertam sua sexualidade a um simples cheiro, ela a retém e escapa na dança, na soltura a uma nova dimensão.

Quando na quarta-feira o sol já não mais se vê e a dispersão na praça do poeta se faz, ela chora copiosamente, sem que ninguém veja.

Sabe que a realidade virá com sua mão pesada e seu mau hálito já no dia seguinte. Que seu refúgio tinha hora para acabar, embora sonhasse, Poliana, que ele se estendesse por mais tantos dias e eternamente. Que, por mais que queira, faltam forças para mudar aquilo para o que foi condicionada.

De um modo, eram duas Marinalvas. Preferia a efêmera, sentia-se mais humana.

Na remissão dos pecados de sua libido insaciável, sentia-se a mais poderosa das mulheres do mundo, ao entregar-se a si e ao som, na negação provando sua força, quando, enfim, direcionava para seu próprio benefício suas atitudes, fazendo-se presente no mais improvável dos momentos.

Com aquela Marinava ela se deitaria; Mas aquela Marinalva jamais se deitaria com ela.

E quem haveria?

– Diga aí, minha preta… Tudo bom?

Começavam já cedo os agrados no dia seguinte.

Haveria quem. Sempre haverá.

Aponta seu dedinho para um deles, e some ali virando à direita.

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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