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A emoção de Lula foi sincera?

A emoção de Lula foi sincera?

Óbvio que não gastarei meu ocioso tempo pra dissecar o discurso de Lula, pois teria que derivar em críticas chatérrimas & empoladas sobre a concepção atrasada dele em relação à matriz energética, entre outras áridas mumunhas.

E, francamente, neste momento, quando boa parcela do país ficou, por breves e eternos minutos, extasiada com os gritos & sussurros do sapo barbudo, tentar enojar o gozo alheio é posição de empata-foda que nem combina com este orgiástico e cabeludo locutor. Ou, pra ser mais dramático, trilhar estes descaminhos azedos seria uma postura antivida, contra a respiração, ainda que ofegante, nestes tempos asfixiantemente temerários e cadavéricos.

Então, esta análise ranzinza fica pruma próxima oportunidade ou, talvez, pra nunca, pois tenho uma certa ojeriza de posar de exegeta. Aliás, o que vi de gente tirada a sabida, metida a estudiosa, obrando análise sobre o referido pronunciamento num tá em nenhum gibi, digo, em nenhum folheto de cordel.

E não adentrei nesta seara última por acaso ou descuido. Terminei o parágrafo falando deste mágico universo das rimas exatamente porque a melhor pista para viajar no que aconteceu ontem no Sindicato dos Metalúrgicos veio de um amigo gaúcho que, assombrado, balbuciou: “Parece aqueles repentistas…”

Sim, meu caro gaudério, parece mesmo. E é, pois, conforme já disseram os pré-socraticamente mais eruditos, a verdade está nas aparências. Porém, aqui, para meter uma embolada no pagode russo, tentemos ir à essência. E a essência de Lula se encontra em Caetés, seu torrão natal no Planalto da Borborema, meca dos cantadores, que pariu o Triuvirato do Repente.

E ninguém é conterrâneo e contemporâneo dos Irmãos Batista, Lourival, Dimas & Otacílio impunemente. (Sim, minha comadre, sei que eles não nasceram na mesma urbe de Lula, mas o corte geográfico aqui é o agreste/mundo). É isso. Lula captou os eflúvios desta ambiência e levou os motes pra glosar/gozar na política.

Por isso que, quando começa a falar, apesar de parecer estar derivando, ele nunca perde o fio da meada. Tal e qual um repentista numa feira livre, estica daqui, tensiona dali, acena pracolá e volta a se apresentar como Tertius (não à toa fala em 3ª pessoa), buscando a conciliação. E, ladino, percebeu que o terreno, apesar de minado, é de novo propício às plantações de sonhos, de emoções e pensamentos imperfeitos e sedutores.

Assim, depois dum calvário pessoal que se enrosca também com os descaminhos da nação, Lula, se reinventando no renascimento, parece emular o canto de Zé Limeira que foi adaptado por Belchior

“Eu cantei lá no Recife
Dentro do pronto socorro
Ganhei 500 mil réis
Comprei 500 cachorros
MORRI NO ANO PASSADO
MAS ESTE ANO EU NÃO MORRO”.

Vivamos. Ou, ao menos, tentemos.


Crônica publicada na Papo de Galo_ revista #13, de 17 de março de 2021, páginas 72 e 73.


Capa da Papo de Galo_ revista #13 mostra Lula sendo abraçado pelo povo. A anulaçãop de condenações do petista no âmbito da Lava-Jato o recoloca não apenas na corrida presidencial de 2018, mas cria oponente poderoso a Bolsonaro no duelo de narrativas pelo controle político nacional.
Capa da Papo de Galo_ revista #13, de 17 de março de 2021.

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