Lendo agora
A irresponsabilidade só precisa de desculpa

A irresponsabilidade só precisa de desculpa

irresponsabilidade

Desde que o ano de 2020 chegava ao fim, uma nova leva de desculpas foi difundida com ares de verdade incontestável: era necessário aglomerar  nas  festas  de  família  e  amigos para, cof, cof, manter a saúde mental.

Veja bem, eu entendo. Mesmo. Manter-se isolado é desgastante demais. Creio que todos tivemos momentos de não saber em que dia da semana estávamos, que data era. A convivência ininterrupta com filhos e cônjuges causava consequências drásticas. Divórcios se acumularam, toca pra carreata pedindo reabertura de escolas, porque filho é bom, mas tudo tem limite, inclusive o amor e a disposição.

Assim, mesmo quando a pandemia ainda parecia um exagero, fabricaram-se justificativas, de acordo com o que se fazia aceitável no instante, prontas para se mudar depois.

A preocupação com o psicológico de agora é a antiga preocupação com a economia. Mas a economia não voltou, nem voltará, insumos estão faltando, inflação disparando, crise ainda mais grave na porta. Vê-se, pois, que se precisava de outra razão para renovar o enredo.

Muitos rompem a barreira de marionetes da pretensa dignidade ignorante no curso da tragédia, e se tornam agentes da infâmia. Direcionam a conversa para fortalecer mitos desumanos, projeções com sua imagem e semelhança, porque não são os opostos que se atraem, mas os iguais, mesmo que, um tanto envergonhados, apelem para senões, seja economia, seja psicológico, seja qualquer outro que venha na sequência.

“Sanidade mental”.

A consequência veio. Pico de mortes na pandemia, colapso do sistema público e privado de saúde. Agora, mesmo casos menos graves ficarão à mercê do acaso, já que a sem UTIs apropriadas, a fila de espera se torna a fila de entrada no IML.

Mas, né?, sanidade mental.

Porque quem disso se vale não busca a alternativa individual para solucionar um problema que é obviamente grave. Aliás, é exatamente a gravidade do problema que torna a desculpa aceitável. Mas se cada um se recolhesse à busca individual, estava tudo certo. Mas não.

Colocaram-se os 2 pés fincados na irresponsabilidade. Em nome da “saúde mental” – afinal, quem não sente falta de abraços, da família, de amigos? – aglomerações voltaram. E vamos para as férias naquele lugar paradisíaco, tudo seguindo os protocolos, sabe?, álcool em gel e evitando toque, mas não filma, não, senão verão que o tal do protocolo conversa fiada, acredita quem quiser, mas a minha consciência está tranquila.

Afinal, pô, sanidade mental. Quem aguenta?

E nunca se morreu tanto de Covid.

O importante é a paz interior e a responsabilidade difusa. “Não fui eu, pode ter sido qualquer um”. E assim dormem o sono dos injustos os tranquilos que precisavam apenas de uma desculpa para ocultar sua irresponsabilidade.

Claro, a culpa não é sua. Nunca será. O problema sempre são os outros.

Até a próxima desculpa.


Artigo publicado na Papo de Galo_ revista #12, de 26 de fevereiro de 2021, páginas 40 e 41.


liberdade de expressão,
Capa da Papo de Galo_ revista #12, de 26 de fevereiro de 2021.

Assine nossa newsletter!

Conteúdo exclusivo e 100% autoral, direto no seu email.


Contribua!

Antes de você sair…. Tudo o que você lê, ouve e assiste aqui no Papo de Galo é essencialmente grátis. Inclusive o que escreve em outros lugares vêm pra cá, sem paywall. Mas vem muito mais pela frente! Os planos para criar cada vez mais conteúdo exclusivo e 100% autoral são muitos: a Papo de Galo_ revista é só o primeiro passo. Vem por aí podcasts, vídeos, séries… não há limites para o que pode ser feito! Mas para isso eu preciso muito de sua ajuda.

Você pode contribuir de diversas maneiras. O mais rápido e simples: assinando a newsletter. Isso abre a porta pra gente chegar diretamente até você, sem cliques adicionais. Tem mais. Você pode compartilhar este artigo com seus amigos, por exemplo. É fácil, e os botões estão logo aqui abaixo. Você também pode seguir a gente nas redes sociais (no Facebook AQUI e AQUI, no Instagram AQUI e AQUI e, principalmente, no Twitter, minha rede social favorita, AQUI). Mais do que seguir, participe dos debates, comentando, compartilhando, convidando outras pessoas. Com isso, o que a gente faz aqui ganha mais alcance, mais visibilidade.

Livros!

Ah! E tem também os meus livros! “Futebol é uma Matrioska de Surpresas” (2018), com contos e crônicas sobre a Copa do Mundo da Rússia, está em fase de finalização de sua segunda edição. Além disso, em dezembro de 2020 lancei meus 2 livros novos de contos e crônicas, disponíveis aqui mesmo na minha loja virtual: “A inescapável breguice do amor” e “Não aperte minha mente“.

Apoie: assine a Papo de Galo!

Mas tem algo ainda mais poderoso. Se você gosta do que eu escrevo, você pode contribuir com uma quantia que puder e não vá lhe fazer falta. Estas pequenas doações muito ajudam a todos nós e cria um compromisso de permanecer produzindo, sem abrir mão da qualidade e da postura firme nos nossos ideais. Com isso, você incentiva a mídia independente e se torna apoiador do pequeno produtor de informações. E eu agradeço imensamente. Aqui você acessa e apoia minha vaquinha virtual no no Apoia.se.


Ver Comentários (0)

Deixe um comentário

Seu e-mail jamais será publicado.

© Papo de Galo, desde 2009. Gabriel Galo, desde 1982.