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Reunião de aparências para o TSE ver

Reunião de aparências para o TSE ver

Terça-feira, 9 de junho de 2020. Ao vivo via TV pública, o presidente Bolsonaro comandava uma reunião ministerial que em nada lembrava aquela de 22 de abril. Sem palavrões e ataques interno, e aparentemente sem motivo de estar sendo transmitida, os devaneios da equipe pretensamente técnica continuaram, especialmente com a fala surreal do ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello. Até mesmo o sempre calado Mourão falou.

O encontro, aparentemente sem motivo para entrada no ar , tinha motivo definido.

Mais tarde no mesmo dia, o TSE votaria se retomaria a apuração de eventuais crimes eleitorais cometidos durante a campanha pela chapa Bolsonaro-Mourão, o que pode levar, em última instância, à cassação e a realização de novas eleições.

Os sinais nas entrelinhas da decisão de se noticiar a reunião indicam mais um caso de prevenção ativa de danos, quando o governo e seus apoiadores atuam para controlar uma crise que está por vir, seguindo prazos mais esticados de apurações jurídico-jornalísticas por zelo à ética e aos fatos, zelo este de que passam longe.

Em meio a uma crise institucional que parece não ter fim, provocada ativamente pelo Palácio do Planalto e seus asseclas, a reunião foi pensada para tentar passar um pano na imagem abalada do governo. Pesquisas indicam polarização na avaliação do governo, que periga romper para baixo a barreira dos 30% de aprovação -nas pesquisas, o percentual de voto atribuído a Bolsonaro é de cerca de 63%, e seu apoio restante vem somente de seus votantes. Ele foi eleito com 55% dos votos. Este 8pp a menos colocariam o presidente mais próximo dos 25% de apoio-, enquanto praticamente o restante 70% desaprovam tanto o presidente pessoalmente quanto seu governo, sem espaço para respostas com o em-cima-do-muro regular.

Estes números são percebidos nas redes sociais e nas ruas. Na internet, o volume de mensagens de apoio caiu em número absoluto e relativo. Em praça pública, turbinadas pelos protestos contra o racismo e a violência policial, as manifestações contra o presidente ganham vez, retraindo as jabuticabas manifestações a favor. Bolsonaro sabe perfeitamente que está em jogo o controle das ruas. E quem controla a rua, controla a opinião pública, que vai bater, direta ou indiretamente, na justificativa de votos no TSE.

A reunião ministerial, portanto, assume um tom apaziguador. O problema, contudo, é acreditar na recorrência desta postura. Nestes 17 meses completos de mandato, não faltou exemplos de morde-e-assopra.

Analisando os eventos que bateram de frente com as intenções do governo, percebe-se duas reações: as planejadas, que ocorrem por antecipação; ou intempestivas às notícias inesperadas, como a impugnação da nomeação de Alexandre Ramagem. A primeira é armada, arquitetada, remediada, quase falsa; a segunda, mostra a verdadeira face da gente que controla o poder executivo federal.

O que se viu na manhã de ontem, 9 de junho, tende, portanto, a ser um teatro ensaiado para o TSE ver e manipular a opinião pública, levando ares de humanidade a quem opera além dos limites da civilidade e da racionalidade.

Horas mais tarde, novas ameaças à estabilidade democrática pela via da intervenção foram proferidas pela sua gente. Porque o obscurantismo da alma não consegue se escondido sem muito treino e ensaio.

No julgamento do TSE, 3 ministros votaram pela investigação: Edson Fachin, Tarcísio Vieira e Carlos Velloso Filho. Outros 2, Og Fernandes e Luiz Felipe Salomão, foram contra. A votação foi interrompida antes que o presidente do TSE, o ministro Luís Roberto Barroso, pudesse se manifestar, uma vez que o também ministro do STF, Alexandre de Moraes, pediu vista. Não há previsão de retomada do julgamento.


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